Emigrar

Verbo intransitivo; acto de deixar o país de origem; partir; sair de; mudar de habitação.

Eu não sei o que é emigrar. Posso saber o que significa literalmente, mas não sei o que é na alma. Nunca o fiz, nunca o senti. Só sei o que é ficar. E é por isso, que hoje, quero falar de esse lado do «emigrar».

É preciso coragem para deixar o nosso país, a nossa casa, os nossos. Mais do que coragem, é preciso bravura. E ainda mais quando se vai sozinho. Disso, não tenho a menor dúvida. No dia em que comecei a ver que, era mais do que certo, que o meu marido ia embarcar num avião e não voltar tão cedo, percebi que coragem e bravura estavam de mãos dadas com ele. Nós não tinhamos uma data certa para voltarmos a estar todos juntos, nós não sabíamos o que seria o futuro. Era tudo uma incógnita, ao acaso, sem datas, sem planos, sem certezas. Vi-lhe muitas vezes na face, a dor da incerteza, da dúvida, da angustia que é deixar para trás dois filhos pequenos, a família. Sentia-lhe o nervosismo, a inquietação. Nessa altura, senti que o meu papel era o de dar forças, transmitir confiança, tranquilizar. Mal sabia eu o que também me esperava.

Quem vai, parte com a esperança toda nas mãos. As coisas querem-se para dar certo. Parte de coração despedaçado, mas a cabeça tem de ir a funcionar, até porque há todo um mundo novo para descobrir. Quem fica, fica com a esperança toda nas mãos. Vê-mo-lo partir de coração despedaçado, e voltamos para casa, agora mais vazia, mais silenciosa.

Para quem parte, começa toda uma nova vida, onde é necessária a toda a lucidez possível para que nada dê errado. Para quem fica, a vida continua na mesma, nos mesmos lugares de sempre, com a mesma rotina de sempre, as mesmas preocupações e responsabilidades. Só nos resta esperar que os dias passem, que o vazio que se sente se vá atenuando, acumulando saudade.

Lembro-me que nos dias que antecederam a partida do Pedro, as pessoas que queriam estar com ele, enchiam-no de palavras encorajadoras, de confiança, de optimismo, de sorte. Invariavelmente, as palavras que mais ouvi, dirigidas a mim, foram as de «estamos cá para o que for preciso». Parece que, inconscientemente, a nossa tendência é a de colocar a mão no ombro e sentir pena. E não quero que me interpretem mal, atenção, que eu agradeci profundamente todos os gestos de carinho que tiveram comigo, de todos quanto se puseram à disposição para me ajudar. Mas, a dura realidade é esta: a quem vai, força; a quem fica, compaixão.

Aqui ficamos a contar os dias, ansiando pelo reencontro, fazendo planos, construindo um castelo nas nuvens, sem saber realmente o que esperar. Sabe-se que o futuro é incerto, incógnito e que a vida tem sempre muitos caminhos para percorrer. A única certeza que temos é o presente que vivemos. E tentamos atenuar os dissabores de uma ausência, de todas as formas que sabemos e conseguimos. Mudamos, também. Ninguém diga que é fácil deixar de estar no seu ‘porto-seguro’ para viver num ponto de interrogação. Talvez quem fique se isole, se resguarde, se torne mais desconfiado, aprenda a não esperar tanto dos outros, não anuncie a sua vulnerabilidade e coloque uma máscara de cara feliz. Porque quem fica, tem de ser forte: por quem vai, por quem fica e por si, também. E fazer a vida continuar.

[tenho a certeza que, se algum dia emigrar, já serei capaz de colocar em palavras o que se sente.]

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