Vamos às compras?

Sair de casa e planear ir ao supermercado comprar meia-dúzia de coisas para o jantar, pode ser uma tarefa muito complicada. Especialmente se a pessoa sofre do sistema nervoso. É bem provável que, quem não roa as unhas comece a roer.

Imaginem o Jumbo na semana do Natal. Agora multipliquem por nove. É quase impossível conduzir um carrinho de supermercado, em alguns hipermercados de Doha. Seja a que dia que for, seja a que horas for. As pessoas são aos magotes, eu acho que eles até debaixo do chão aparecem.

Tivemos a infeliz ideia de ir ao Lulu (uma das cadeias de supermercado existentes no país), aqui perto de casa. Em simultâneo, mais de metade da Índia deve ter tido a mesma ideia. E mais alguns locais, que também os vi. Pronto, éramos muitos.

Lá fui eu, empurrando o carrinho de compras, à medida de meio-centímetro por minuto, com pouca paciência, é certo, mas com muita necessidade dos produtos que ia comprar, sob pena de comer guardanapos no dia seguinte!

Este povo que aqui habita também como expatriado, vindo da terra do caril e do Taj-Mahal, é deveras muito curioso e peculiar. Antes do mais, eu acho que eles não sabem o que é circular. Isto tanto se pode observar enquanto andam a pé, como a conduzir qualquer que seja o veículo. Param onde quer que seja, dão meia-volta, atravessam-se à tua frente, largam os carrinhos onde quer que seja, obstruem a passagem. Param para conversar em frente de um expositor qualquer, mas não estão a escolher nada, só estão ali, em círculo a conversar. Não percebem o que é um «desculpe», desconhecem um «com licença»… Suspeito que tenham crescido com esta característica, porque como na terra natal são obrigados a contornar vacas, nos sítios onde não as encontram tão facilmente estacionadas, devem sentir-se perdidos, desorientados. Devem ter um defeito no GPS, com certeza!

Mas, aglomerados de gente à parte, até se torna muito engraçado entrar num supermercado. Mais que não seja para nos darmos conta de uma realidade a que não estamos acostumados.

Aqui, muito mais do que apostar na qualidade, aposta-se na quantidade. Senão, vejamos: o arroz é vendido às sacas de 5 quilos para cima. Também há pacotes mais pequenos, é certo, mas não me parece que tenham a saída mais popular. O mesmo se passa com o açúcar, a farinha. A explicação pode passar por ser mais prático para as famílias, geralmente grandes que existem no país. Os qataris têm muitos filhos. Alimentar tantas bocas pode ser uma dor de cabeça na hora de fazer a lista de compras. Assim, em vez da senhora apontar um pacote de arroz, aponta uma saca de vinte quilos. Pronto, alimentados de arroz para um mês inteiro.

Às vezes, como se já não bastasse o tamanho industrial do produto, ainda fazem promoções em que numa enorme embalagem colocam lá embalagens mais pequenas ou iguais do mesmo produto, como oferta. Podem ver isso ali na foto onde aparece o arroz basmati Tilda. As embalagens de baixo são as maiores (20 quilos se não estou em erro) e na prateleira de cima, podem ver a promoção de vários pacotes de arroz juntos, mais um mais pequeno. O que realmente surpreende, é que este tipo de coisas compensa. Os preços até são bastante atractivos.

Outra coisa que os qataris e indianos consomem em demasia: leite em pó. O curioso é que eles têm leite ultra-pasteurizado, em pacotes semelhantes aos nossos. E embora algumas marcas não prestem para nada, até se encontra uma ou outra marca de qualidade. É preciso ir experimentando. E ler os rótulos: há leite de vaca, de cabra e de camelo. Ou da fêmea do camelo, para ser mais precisa. E também há toda uma gama de leites de aveia, amêndoas, coco, soja. Ou seja, existem alternativas mais saudáveis e menos químicas. Mas eles, continuam a preferir o leite em pó. E como não pode deixar de ser, o mesmo é vendido em latas ou pacotes de tamanhos industriais.

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Promoções, ofertas, vale tudo e para quase tudo. Nos produtos de higiene e beleza, é muito comum comprar-se os shampoos aos pares, o gel de banho, o sabão para as mãos em embalagens de três. Nos produtos de limpeza, o mesmo cenário. Queres comprar um detergente para o chão, ou trazes um de cinco litros ou uma embalagem com dois ou três de tamanho normal. Aqui não se faz a festa por menos.

Uma vez pedi ao Pedro para comprar polpa de tomate. Trouxe uma embalagem com dez pacotes. Era a promoção que havia. Ora isso dá quase para dois meses para nós, e mesmo assim fazendo muitos pratos com polpa de tomate. Para uma família local, acredito que não dure tanto!

O que realmente dá gosto é ver a quantidade de legumes, frutas, hortaliças que eles têm à venda. Umas bastante familiares, outras autênticas desconhecidas. Enquanto deambulava pelos corredores, embalada no mar de gente à minha volta lá fui tirando umas fotos.

Outra coisa que eles também vendem que se fartam: frutos secos. Um amontoado de tudo quanto é espécie: amêndoas cortadas de todas as formas e feitios, pinhões, pistácios, avelãs, castanhas, ameixas, amendoins, nozes, sementes de todas as espécies. O que imaginarem, eles têm.

De resto, como em qualquer supermercado comum: os frios, o talho, os congelados, a peixaria. A pastelaria com imensos bolos e sobremesas, de fazer inveja a muita pastelaria de rua. A padaria com pães de toda a forma, mas com especial ênfase para os pães locais, que acabados de fazer são uma autêntica perdição e amigos da engorda.

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Para finalizar: ir ao supermercado em Doha requer força anímica. E persistência. E, sobretudo, muita paciência e calma, até porque não é permitido espancar ninguém, embora nos comece a passar isso pela cabeça logo assim aos primeiros minutos. Por muito que nos sintamos a cegar e impulsionados a desatar ao pontapé, convém termos sempre presente no nosso pensamento que tudo isto faz parte de uma cultura a que nós, os eternos civilizados europeus, não estamos de todo acostumados. Mas depois, a nossa capacidade de sobrevivência começa a vir ao de cima. E este jogo de selva começa a ser menos agressivo. Prefiro pensar assim, uma vez que vou ter que me acostumar a este tipo de stress. Até porque acredito que ainda é uma utopia as compras online com entrega em casa. Desconfio que vou ter muitas saudades do meu Jumbo do coração, mesmo na semana do Natal.

 

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Outside World

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Uma das primeiras impressões que tive do país, não só quando visitei na primeira vez, mas também nas viagens seguintes, foi a de que a civilização era um ponto forte. Doha é, de facto, uma cidade cosmopolita e em ascensão. Mas, assim que saímos do núcleo urbano, os sentimentos contradizem-se. Mais uma vez, a famosa sensação: ou se ama, ou se odeia. Não quero dar falsos testemunhos: a mim impressiona-me.

Se formos até Mesaeed, por exemplo, ao passar pela estrada que nos leva até Al Wakra, tive a sensação de que ia encontrar o José Rodrigues dos Santos, de microfone em punho, a relatar qualquer acontecimento com a guerra do Golfo. O deserto é desolador. E muitas vezes, as povoações fazem-nos cair na realidade: não estamos na velha Europa. Isto é mesmo um país no Golfo Pérsico, com todas as semelhanças aos cenários que viamos nas reportagens. Basta andar uns quilómetros para fora da capital.

A paisagem árida e creme, levada numa neblina de pó e areia, não mostra sinais de vida. São pó, pedras e pequenos arbustos, na seca e crua natureza que nos rodeia. Às vezes, ainda me custa acreditar que estou mesmo aqui.

De vez em quando, casas em construção ao abandono, terrenos baldios, amontoados de povo que não imagino como viverão. A dura realidade de que, o que vemos no centro, não corresponde de todo, ao que encontramos nas periferias.

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Falaram-me sobre algumas zonas, nos arredores de Doha, onde os amontoados populacionais acontecem sem se saber como. Aqui, não se trata tanto disso. Trata-se de olharmos em volta e vermos deserto. Sentirmos que o chão que pisamos não se trata só de terra e pó, mas sim de algo imaterial: uma ilusão perdida.

Aqui, nestas paisagens, nestes locais quentes e secos, vivem pessoas. Muitas pessoas. Para a grande maioria, esta será a única realidade que conhecem. Não sei se são felizes. Não sei como vivem. Apenas imagino, ou nem sei bem se aquilo que imagino se poderá aproximar da realidade.

Dizem que o deserto fascina, pelo seu silêncio e pela sua imponência. A mim fascinou-me pela sensação de poder superior. Aqui, a nossa capacidade de superação é posta à prova. Mas não acredito que o Homem leve a melhor. Aqui, o ser humano tem de se adaptar, com resiliência, com grandeza e bravura. Nestas paragens, precisas ser mais forte que as adversidades e tentar viver com aquilo que está ao teu alcance. Até porque esta realidade é o antípodas dos compound de luxo e do glamour da Pearl.

Tenho apenas uma certeza: os meus pés pisaram estes solos. Esta sensação, esta experiência, já ninguém me pode tirar. Dizem que das viagens voltamos mais ricos. E eu acredito. Só posso acreditar.

Parar, apitar e comer.

aqui falei de Matar Qadeem e das suas curiosas maravilhas. Ou nem tão maravilhosas quanto isso!

Hoje, venho mostrar-vos o que se pode fazer quando se sofre de preguiça crónica! Imaginem o cenário: estão a conduzir e dá-vos uma fome de qualquer coisa. A nós deu-nos de guloseimas, de coisas doces. Então, basta parar o carro, apitar e lá vem o rapaz à janela fazer o pedido.

Nem sequer saímos do carro. O cúmulo de quem não quer fazer nada, mas quer comer.

Passados uns minutos lá chega o nosso pedido: uma paratha com Nutella e dois sumos de Laranja natural.


Tudo vem perfeitamente acondicionado para se poder comer no carro sem fazer porcaria lá dentro! Os copos de sumo vêm selados e as palhinhas são demasiado grossas para impedir que derrame. A paratha vem numa caixa que mantém o calor e, ao mesmo tempo protege os nossos estofos e roupa de migalhas e pingos de chocolate!

E é isto! Se não aguentas a fome comes imediatamente no carro; se aguentas mais um pouco, levas para casa. Eu não resisti ao cheirinho da paratha quentinha e comi no carro. Deixei o sumo para beber em casa! 🙂

Ramadan

Daqui a algumas horas, irá dar inicio o sagrado mês do Ramadão, para o povo muçulmano. Obviamente, Doha não é excepção e por lá celebra-se também este mês, que tem por finalidade, não só o jejum, mas a contemplação, a oração, a partilha e a introspecção. Um mês inteiro dedicado à religião que se professa no país.

O sagrado mês do Ramadão é o nono mês do calendário islâmico, e os muçulmanos em todo o mundo celebram com o jejum (sawn), um dos cinco pilares do islamismo, desde que o sol nasce até que o sol se põe (iftar). É, como já disse, um período de reflexão, de união, quando as famílias devem estar reunidas, assim como também os amigos.

Para o sawn (jejum), os praticantes devem abster-se de comer, beber, mascar pastilhas elásticas ou fumar, até ao pôr-do-sol (iftar), altura em que depois podem quebrar o seu jejum. No Qatar, os não praticantes devem respeitar estas regras quando se encontram em público.

Nunca se consegue precisar quando terá inicio o Ramadão, uma vez que um comité reunido na Arábia Saudita, vai estudando as fases da lua. O início será sempre quando, a partir da lua nova, se aviste a primeira fase de crescente. Espera-se que este ano, o Ramadão inicie na próxima segunda-feira, dia 6 de Junho e dure até ao dia 7 de Julho, quando três dias de festa são celebrados, o Eid al-Fitr.

O que não fazer durante o Ramadão

saiba o que fazer para respeitar os praticantes durante este período

Não.. coma, beba, mastigue pastilhas elásticas, fume em público durante as horas de sol. Isto é incluído na rua, no carro, no local de trabalho, nos locais públicos. Quebrar esta regra é punível por lei!

Não.. toque música alta, dance ou cante em público. Não existirão eventos musicais em Doha – apenas musica de fundo instrumental é permitida – uma vez que este é um período contemplativo e de oração.

Não.. blasfeme, amaldiçoe ou jure em público. Nunca é uma coisa bonita de se fazer numa sociedade civilizada, mas fazê-lo no mês do Ramadão é particularmente ofensivo.

Não.. vista roupa que revele demasiado o seu corpo. Ambos, homens e mulheres, devem certificar-se que ombros estão cobertos e a roupa cobre até aos joelhos.

Sim.. entre na atmosfera do espírito festivo desta altura do ano; delicie-se com os sumptuosos buffets disponíveis por toda a cidade; participe nos jogos e experimente a autêntica hospitalidade árabe com a família e amigos;

Sim.. respeite os vizinhos. Se não vai jejuar, tente não cozinhar comidas condimentadas (e mais cheirosas!), tanto em casa como a que leva para o local de trabalho.

Sim.. conduza ainda com mais cuidado. Especialmente por cauda daqueles que estão com pressa para chegar a casa ou para o iftar; ou por causa daqueles que conduzem de mau-humor e com fome durante o dia!

Sim.. aproveite para conhecer os tradicionais sons árabes, uma vez que em muitos locais, durante o iftar, pode encontrar tocadores de oud ou bailarinos de tanoura, para entreter os convidados!

Acima de tudo, se vai passar este mês sagrado no Qatar, divirta-se e tente aproveitar tudo aquilo que o país proporciona. É o mês do respeito, da tolerância, da oração e da contemplação; mas é também o mês onde tudo está com óptimas promoções (desde os carros aos electrodomésticos), onde os restaurantes proporcionam menus muito em conta para reunir a família e amigos e o mês onde todos os dias ocorrem eventos culturais a não perder.

Ramandan Kareem!

(ou em português: tenha um generoso ramadão!)