«Ah e tal, agora são ricos.»

“A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas.”

~Miguel de Cervantes

Uma das primeiras observações que nos fizeram, quando o Pedro resolveu emigrar para o Qatar foi: estão ricos. Como se essa fosse a verdade mais absoluta do universo. Achar que íamos enriquecer, num passo de magia instantâneo, foi o que mais passou pelas cabeças das pessoas.

Se, a algumas damos o devido desconto, a outras só podemos achar que é ridículo. A roçar o imbecilóide.

Como é mais do que óbvio, ninguém emigra para piorar a sua situação financeira. Ou, pelo menos, ninguém o faz com essa intenção, abrindo já aqui a excepção para aqueles casos em que as coisas correm mal. Adiante, ninguém faz o esforço de sair da sua casa, da sua zona de conforto, para ir contar tostões e ser mais mal pago que no seu país. É um facto, uma verdade incontornável, que os salários no Qatar são elevados. Especialmente para a mão-de-obra especializada, para os cargos médio-altos. O vencimento pode ser duas ou três vezes superior ao praticado em Portugal, por exemplo. Senão fosse esse (pequeno) grande incentivo, ninguém pegava numa mala de 30kgs e embarcava num avião para mais de 5000km de distância. Sejamos realistas!

Mas, daí a achar-se que a fortuna cresce instantaneamente na conta bancária, vai um grande (senão enorme) passo. E para além do passo, talvez meses, senão anos, para que a poupança aumente e os lucros de se viver longe do que é nosso comecem a aparecer.

Viver no Qatar custa dinheiro. Se, em algumas coisas o preço até é bem competitivo e talvez mais barato que em Portugal, para a maioria das coisas há que ter poder de compra. Alugar uma casa, em Doha, é estupidamente caro. Beber um café pode, facilmente, custar 3€. Ninguém faz vida de pastelaria, como qualquer um faz em Portugal, se não tiver poder financeiro para isso. Um simples passeio, que compreenda parar num café para lanchar, por exemplo, para uma família de 4 pessoas, pode facilmente chegar aos 50€. Um crepe aqui, um bolo ali, dois cafés e dois sumos e lá se vão uns quantos reais. Assim, como quem não dá por ela.

Obviamente, há locais mais acessíveis. Obviamente, há restaurantes onde se pode comer por pouco. O MacDonalds, por exemplo, é ligeiramente mais barato que em Portugal. Mas, sejamos sinceros, ninguém passa a vida a ir comer ao Mac! Para além de enjoar, fica-se obeso!

Facilita (em muito!!) morar numa casa cedida pela empresa. O preço da gasolina também é um bónus mensal! No supermercado encontramos muitas coisas a bons preços e constantes promoções. Mas, um pacote pequeno de natas pode custar mais de 2€. E o preço da alface é astronómico.

Existem imensas facilidades para se adquirir um carro, seja ele próprio ou alugado e há menos burocracia e zero impostos. Mas, se a pessoa tem filhos paga bem caro pela educação.

Contudo, não escrevo isto com o propósito de desmitificar a qualidade ou o custo de vida de um emigrante, num país como o Qatar. Escrevo com um objectivo: relembrar que somos seres humanos. Como tal, temos ouvidos para ouvir, olhos para ver e cérebros para digerir aquilo que ouvimos e vemos. Rotular alguém, só porque se acha que se sabe o que se passa na vida dessa pessoa, é absurdo, ridículo e maldoso. Quem parte em busca de uma vida melhor, não parte tendo a vida facilitada. Se, para alguns factores o sol volta a brilhar, para outros é uma tempestade monstruosa. Só quem parte entende o que é deixar os seus, as suas coisas, o seu lugar. Lidando com tudo o que há para lidar: sentimentos, frustrações, saudades, tempo perdido, solidão. São muitas mais as vezes em que se pensa em desistir, do que aquelas em que adoramos o dia de são receber. Já para não mencionar todas as dificuldades inerentes a uma nova vida, a uma nova cidade, a uma nova cultura. Desengane-se quem acredita que, só porque a vida nos deu uma oportunidade, isso se traduz em ter ganho o euromilhões. Desengane-se quem acha que ‘isto’ é motivo de inveja. Acreditem que há coisas bem mais valiosas que o dinheiro.

Dito isto, só me resta esclarecer uma coisa: pessoas, nós não estamos ricos! [se bem que gostaria imenso de estar aqui a escrever o contrário, não posso negar!] Se confundem trabalho e esforço com ‘ricas vidas’, vocês têm um problema sério. E, infelizmente, eu não estudei psiquiatria, não posso prescrever a salvação para o vosso problema. Vamos, isso sim com toda a certeza, tentar construir o nosso futuro, com todas as oportunidades que Deus nos der. Chama-se a isso fazer pela vida. 😉

Resumindo: sim, ganha-se bem no Qatar. Com muito juízo e controlo, consegue-se ter uma vida desafogada. Acredito que ao fim de alguns anos, se consiga fazer uma boa poupança. E não, não nos jorra uma fonte de petróleo no quintal. Até porque moramos num apartamento. E sem varandas, quanto mais quintal.

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