Da minha janela..

 

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Da minha janela vejo o mundo.

A primeira vez que aqui cheguei, pensei que estava tramada. Vinha eu das Gambelas, de ver verde e flores e campo à minha volta. Das vivendas bonitas e das ruas pacatas. Começamos mal! – pensei.

A nossa rua estava fechada para obras. Para chegarmos ao prédio, andávamos por labirintos e ruelas, no meio deste género de bairro de Doha. Becos sem saída, buracos, prédios feios, restos de obras, contentores de lixo e gatos, muitos gatos abandonados. Era um cenário que desiludia, tendo em conta os lugares giros e super-luxuosos que existem por esta cidade fora.

Aos poucos, a minha opinião começou a mudar. Não, não gosto da estética nem das redondezas. Isto para mim levava com um Extreme Makeover radical. Plantava árvores e construía jardins, demolia casas feias e a cair, pintava tudo em cores mais bonitas. A minha opinião começou a mudar, porque reparei que aqui estava perto de tudo. Da escola, do trabalho do Pedro, do centro, de lojas e restaurantes, de serviços. O trânsito em Doha é tão confuso e tão caótico, que estar perto das coisas que se precisam diariamente, não é sorte: é uma bênção.

Com largos períodos em casa, enquanto o marido trabalha, a janela é um motivo de distracção. Daqui vejo a vida a passar. As pessoas que passeiam pela rua, nas suas vidas. Quando a mesquita faz o chamamento, lá vão eles apressados. Os carros a circular, muitos nem sabem fazer a rotunda como deve de ser. E à noite, é vê-los a passar com as caras iluminadas pelos ecrãs dos telemóveis, que esta gente ainda não descobriu o perigo de ir a conduzir de iPhone em punho. Os miúdos que brincam nos passeios, que às vezes andam à pedrada uns com os outros e ficamos a agradecer ao Pai dos céus por termos garagem. Os indianos que passeiam de mão dada, elas que desfilam os seus trajes coloridos e cheios de brilhantes. Os gatos vadios que brincam e lutam, muito peludos mas desengonçados. Aqui perto, o antigo aeroporto, de onde descolam aviões em testes ou caças da Força Aérea e o barulho é surreal.Os táxis a apitar à procura de  clientes, assim que vêem alguém a andar na rua. A carrinha do distribuidor de água, que mesmo debaixo de um calor infernal, lá carrega com os garrafões cheios e volta com os vazios. Da minha janela, vê-se a lua; vê-se a aurora de luz que emana do City Center.

Não moro no lugar mais bonito de Doha. Nem sequer anda lá perto. Mas, daqui vejo a vida a acontecer. Tal como ela é. E isso empurra-nos de volta para a realidade. Não viemos para o país dos tapetes voadores e dos Aladinos. Aqui não se esfregam lâmpadas mágicas e aparece o génio pronto a satisfazer desejos. Aqui, como em qualquer lado do mundo, trabalha-se e vive-se com o que a vida nos dá. Aqui será o nosso lar, enquanto Deus quiser. E é aqui que trataremos de ser felizes.

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