9 meses.

Há nove meses atrás, por esta altura, estava a fazer as malas. Não era eu que partia, era um bocado de mim. Lembro-me bem da confusão que foi… os últimos preparativos, as compras de última hora, as despedidas, ir aqui e ali, tratar de burocracia, bancos, finanças, não esquecer de nada (ou tentar!); chegar ao fim do dia e querer que o tempo parasse, congelasse, não voltasse a andar até que disséssemos o contrário.  – Já podes, tempo. Já podes andar com essa pressa toda. – Há nove meses atrás, eu via este dia de hoje tão longe como vejo agora os meus oitenta anos.

Acontece que o tempo, esse apressado, não parou. Não parou de correr, galopar nas semanas e nos dias. Passou o Natal e o fim de ano, aconteceu a minha primeira viagem a Doha, depois foi a vez dos meninos visitarem o novo país [e de andar no avião do pai, como diz o Manel], o aniversário do Pedro, mais uma viagem, mais um regresso. Nestes meses, o Pedro foi ao Bangladesh, à Arménia, a Itália, veio a Portugal duas vezes. Andámos em movimento, contrariando a teoria de que o tempo passa devagar, só porque nós não nos conformamos com imposições e impossíveis.

Hoje, a poucos dias da minha partida definitiva para o Qatar, percebo que tinha toda a razão do mundo, quando repetia para mim própria, que o tempo havia de passar a correr. Mesmo quando nas adversidades, deixei de acreditar que era capaz de dar conta do recado; mesmo quando nos piores momentos, tive vontade de jogar a toalha ao chão, e acabar com a brincadeira, e dizer «pronto, já viste como é isso aí, agora é voltar pra casa se faz favor»; mesmo quando me sentia impotente e incapaz e fraca; mesmo nessas alturas, a minha voz interior, que sempre me gritava no final: isto passa! Isto passa depressa e tu és capaz!

Faltam poucos dias para apanharmos um avião – e depois o avião do pai, como diz o Manel – e aterrarmos em Doha. Sinto que já conheço os passos. Sei que vou ter a senhora da Al-Maha à nossa espera, que nos irão apanhar as malas enquanto esperamos num lounge com sumos e bolos e café e chá. E que depois trataremos da imigração, sairemos até às chegadas. E que lá fora, estará o pai a esperar por nós, de braços abertos. E havemos de respirar fundo, que agora é que vai ser a sério. Que não precisaremos mais que o tempo corra ou pare, que agora só queremos que ele faça aquilo para que é destinado: acontecer. E viveremos, enfim, depois de nove meses, novamente em família.

Nove meses depois, o tempo que leva a gerar um filho.

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