Adeus Portugal. Olá Qatar!

Chegamos há 6 dias atrás. Depois de doze horas de viagem, bastante cansativas, mas muito bem passadas. Confesso que vinha um pouco assustada, por viajar novamente sozinha com os meus filhos. Não tanto por ela, mas mais por ele, que acusa o cansaço logo assim à primeira meia-hora. Felizmente, os meus filhos devem ter nascido com os genes de viajante da mãe. Vão a todas e de sorriso nos lábios.

A viagem de Faro para Madrid, fez-se sem qualquer problema. A não ser, o timing que a bexiga do meu filho tem nestas alturas. O avião a aterrar em Barajas, e o Manel a dizer-me que não aguentava mais o xixi, agarrado às calças. Era quase inútil distraí-lo ou pedir-lhe que aguentasse. Eu sabia que ele, quando pede, já está nas últimas. Pior, eu sabia que, apesar de estarmos a aterrar, o tempo que o avião leva a circular na taxiway, até parar por completo, é para cima de uns quinze minutos. Por segundos, pensei: vai fazer ali sentado no banco, vai ficar todo molhado e ainda bem que trago roupa na mala de mão.

Olhei para a hospedeira que estava muito perto, expliquei-lhe a situação. E diz ela: «Mas agora é impossível e temos de esperar que o avião pare, porque ele pode cair e você também!». Ok! Ele vai fazer no banco. O avião quase a tocar no chão, ela a ligar à colega que estava lá atrás, que estava ali un niño que tiene que hacer pipi ahora mismo! O avião toca no chão, ela desaperta o cinto, apanha no Manel e lá vou eu atrás e entre solavancos e abanões, o Manel faz xixi com o avião a aterrar em Madrid.

Em Madrid, depois de muito andar, lá fizemos o nosso check-in na Qatar Airways e lá fomos , a caminho do nosso querido Dreamliner (Boeing 787) que nos levaria até Doha, até aos braços do amor-pai. Ficámos sentados na última fila, mesmo ao pé dos cabin-crew.

Mais uma vez, o meu Manuel foi o centro das atenções. Cada um que passava por ele, ficava uns minutos a brincar com ele. À nossa frente, um grupo de coreanos. Assim que o avião começa a acelerar na pista para levantar voo, tudo calado e o Manel grita :«Hooo-Houu.. I BELIVE I CAN FLY!». Imediatamente, os coreanos viram as cabeças para trás, a rir e os assistentes de bordo também. Tudo a rir, «dá cá cinco!», «Tu és tão giro!», «cutchi-cutchi» e o Manel a dizer «Yes» a tudo. Foi uma alegria!

img_2394

Foram umas horas bem passadas a bordo, especialmente porque o entretenimento é muito variado. Desde filmes, a jogos e a música, eles podem ocupar o tempo. Para comer, veio o menu especial de crianças, cheio de coisas boas: massa com molho de tomate, cenouras, ervilhas, queijo, batatas fritas, bolo de chocolate, melão, sumo, doces. E para o lanche, sumo de maçã com pão com nutella.

Aterrámos em Doha, já no dia seguinte. À nossa espera, os abraços e o sorriso do amor-pai. E um calor como nunca senti na vida. Havemos de nos habituar, tenho a certeza.

O carro cheio de malas, as malas onde coube tudo o que tínhamos para trazer. E o abrir de uma nova porta de casa, à qual chamaremos lar. Dissemos adeus a Portugal, num dia quente de Agosto, para dizermos olá ao Qatar numa escaldante noite de Agosto. Aos poucos, dia após dia, vamos construindo aqui o nosso lar.

Estamos bem, estamos felizes. E ontem, ao quinto dia, quando lhes perguntei: «sentem-se em casa?», os sim soantes e seguros e os sorrisos na cara, fizeram-me sentir segura de que sim, estamos em casa. 

Porque hoje é dia de estar feliz.

Hoje é o dia da nossa partida. Tudo o que coube dentro das malas, tudo o que transbordou coração fora, tudo o que é só nosso, é a nossa bagagem. Estamos felizes: vamos para os braços do nosso amor-pai. Tantos meses de espera, acabaram agora com a chegada deste dia. É nestas horas que os olhos teimam em soltar as lágrimas, em que a voz se embarga. É quando se dão os abraços a quem fica, até que nos voltemos a reencontrar. Acreditem em mim: o tempo voa.

Fecha-se a porta de casa e, atrás de nós, fecha-se um ciclo da nossa vida que jamais voltará a acontecer. Olhamos pela ultima vez para a nossa rua, tentamos levar um bocado deste ar, enchendo o peito com força. E partimos.

Hoje, vamos em busca de uma nova vida; vamos ao encontro dos braços que nos querem perto; hoje vamos ser felizes. Hoje, vamos voar.

adc83c929a615fe727f14a77f063f9ca

Preparar a partida.

A exactamente sete dias de partir, começo a ficar com imensa pressa de ver tudo pronto e arrumado. E não pode falhar nas coisas mais importantes, até porque não vamos de férias com regresso marcado para daqui a quinze dias. Nós vamos [mesmo!] mudar de país.

Obviamente que nestas três viagens que fiz a Doha, já fui levando algumas coisas para que a bagagem não pesasse tanto, no dia do verdadeiro adeus. Assim sendo, desta vez a grande prioridade vai para as coisas dos miúdos. E eles acumulam imensa tralha! É a roupa [que na graça do Senhor, é só a de verão fresca e leve], são os sapatos [mais uma vez agradeço não ter de ir de botas atrás], os brinquedos, as consolas, os livros, os gadgets, enfim.. um mundo sem fim de coisas que vão ter de caber numa mala de porão.

Mas, o propósito deste post é o de serviço público. Funciona assim como uma check-list de memória, a quem tenha de passar pelo mesmo. Esta lista foi a que eu fiz para me organizar. Obviamente, cada caso é um caso e as necessidades e prioridades de cada um são diferentes. Mas, penso que de uma forma muito geral, esta check-list pode ser bastante útil, ao mesmo tempo que é versátil e adapta-se a qualquer realidade. Vamos lá então?

Documentos

  • Passaporte (com mais de seis meses de validade) e Cartão de Cidadão
  • Carta de Condução
  • Boletim de Vacinas (em dia)

Para alguns países (e o Qatar é o caso), é necessário tratar atempadamente de certidão de nascimento, casamento, nascimento dos filhos (se houver, claro) e certificado de habilitações. Os mesmos deverão ser traduzidos para Inglês, autenticados no Ministério dos Negócios Estrangeiros e autenticados na Embaixada do país para onde se viaja. No meu caso, na Embaixada do Qatar em Portugal, que fica em Lisboa. Esta burocracia é demorada e tem custos. Uma vez chegados ao país de origem, é conveniente saber se é necessário tratar do visto de entrada. Mais uma vez, no meu caso, a burocracia no Qatar não termina e ainda é mais demorada e confusa. São necessárias as traduções dos documentos para árabe, pagar pelos processos e preencher alguns requisitos para se poder ter direito ao título de residente no país.

Assuntos a resolver, antes de fechar a porta de casa:

  • Suspender contratos com EDP, Gás e Água;
  • Suspender ou renegociar contratos de telecomunicações;
  • Passar os pagamentos para Débito Automático;
  • Pedir o envio das facturas por email;
  • Informar qualquer organismo público ou privado, se para tal houver necessidade, que estamos a ausentar-nos do país;
  • Deixar uma procuração de plenos poderes a alguém de confiança, que possa tratar de algum assunto inadiável que surja em nosso nome: pode ser feita em qualquer notário e tem custo de emissão.
  • Deixar a chave de casa com alguém de confiança: convém que alguém vá ver se está tudo bem e abrir janelas, para deixar a casa respirar!

Na Bagagem:

Para além da roupa e do calçado, convém levar mais algumas coisas, quando nos estamos a mudar permanentemente (ou por tempo indeterminado).

  • Medicamentos de uso frequente, para doenças crónicas, por exemplo. Convém levar um relatório médico justificando a necessidade do transporte desses medicamentos;
  • Paracetamol, Ibuprofeno, anti-diarreicos, estabelecedores da flora intestinal (UL250, por exemplo), são alguns exemplos de uma pequena farmácia de urgência em casa.
  • Termómetro, tesoura e pequeno kit de primeiros socorros;
  • Material informático ou de fotografia, com os respectivos carregadores;
  • Livros
  • Fotografias
  • Objectos valiosos (como jóias, documentos..)

Eu excluí tudo aquilo que sei que vou conseguir encontrar facilmente em Doha, se sentir necessidade. Obviamente, gostava muito de levar a minha almofada, ou as minhas colchas da cama. E mais meia-dúzia de bibelôts e monos que aqui tenho a decorar a casa. Mas, sejamos realistas: não é o que mais me fará falta e não tenho espaço para tudo. O que é sempre um bom pretexto para decorar uma nova casa, do outro lado do mundo!

De lista feita e conferida, começa a comédia de fazer caber o Rossio na Rua da Betesga. Todas as coisas que os miúdos precisam (e querem!) levar, mais as coisas que eu também preciso, em duas malas de porão que não ultrapassem os 23 quilos. E se tudo correr bem, havendo espaço, levo um bacalhau para demolhar no Qatar. 😉