Momento Cultural: o que são aqueles sons que os qataris fazem?

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1 mês aqui.

Ontem fez um mês que eu e os meninos chegámos a Doha. Olhando para trás, pensamos que pode não ter passado assim tanto tempo, e ao mesmo tempo achamos que já se passaram meses. Os dias têm, de facto, outro peso, dependendo da realidade que vivemos.

Completamente instalados, a vida começou a ter rotinas. Especialmente, quando a escola começou. Uma das minhas grandes preocupações, a adaptação, não podia ter corrido melhor. Particularmente, no caso dela. Surpreendentemente, no caso dele. No próximo domingo, retomamos as aulas, depois de uma semana de férias por ocasião do Eid Al-Adha. Esperemos que não haja um retrocesso na adaptação dele, tendo em conta que os ‘breaks‘ logo ao inicio podem levar a que ele tenha mais dificuldade em integrar-se. Mas, com esforço, dedicação e perseverança, havemos de conseguir contornar os obstáculos.

Aos poucos, tudo se vai compondo. Desde os exames médicos para conseguir os nossos RP (cartões de residentes no Qatar), às burocracias, à preparação das aulas, a adaptação ao clima,ao conhecimento de novos amigos, fomos passando estes dias a aproveitar cada bocadinho.

Esta semana, os dias são de descanso, graças aos festejos do Eid. Ontem à noite, fomos ver os fogos de artificio em Katara (uma vila cultural, em Doha). Um espectáculo de luz e cor, acompanhado de música. Por momentos, imaginei que celebravam o nosso primeiro mês no Qatar, em família.

É o primeiro e é especial. Não vou contá-los, por regra, pois estarei aqui sem data definida para regressar. Mas, só peço que todos os que se seguem sejam tão serenos e felizes como este, cheio de aprendizagens e de metas concretizadas. Cheios de sonhos por concretizar e esperanças que nunca morrem. E que, aos poucos, dia após dia, os nossos sorrisos se vão abrindo ainda mais, que os sonhos dêem lugar à realidade e que encontremos o nosso caminho. Que seja aqui, se tiver de ser.

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E que comecem as aulas..

Dia 1 . 04 de Setembro de 2016

05h40 – toca o despertador. Todos de pé. Eles muito excitados porque tinha chegado o dia. Andaram a falar nisto durante dias, semanas. A escola nova. Amigos novos. Toda uma realidade que eles desconheciam. Como seria, o que aconteceria? Mochilas prontas, lancheiras e uniformes vestidos, lá fomos a caminho daquele que será o espaço onde mais vão crescer e aprender.

06h45 – Ao portão, recebe-nos o director da escola. Toda a gente bem disposta, a Mariana a radiar felicidade. O Manuel já a acusar o que se seguiria. Fomos primeiro deixá-lo a ele, na Recepcion. Uma professora novinha esperava por nós. Miss Donnelly é o nome dela (e ele já sabe dizer, com um certo sotaque british!). Deu-me um abraço e ficou a fazer beicinho, mas ficou. Depois, foi a vez dela. Tem um professor, Mr Cassidy. Na turma, ao todo são 9 alunos, contando com ela. Lá a deixei na sala, toda feliz.

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E saí. Ainda sem me dar muito bem conta do que estava a acontecer. Esqueçam todos os dramas de deixar os vossos filhos numa escola nova em Portugal. Só quem passa por esta experiência, percebe o que quero dizer. Não basta o nervosismo de os deixar, senão ter a certeza de que, pelo menos o pequeno, não percebe nada do que se passa à volta dele. Que não se vai conseguir exprimir, que não vai perceber o que lhe dizem, que não vai com facilidade brincar e aproveitar todos os excelentes recursos que a escola oferece, porque não sabe muito bem o que ali está a fazer. Conseguem imaginar a minha angustia? Multipliquem por 9 isso que imaginaram e não chegarão lá perto..

Em frente à escola, está um hotel. Fiquei lá sentada no bar durante as sete horas que se seguiram. Não me peçam para descrever o que fiz ou senti. Acho que só fiquei ali, sentada, a olhar e contar os minutos que faltavam. Asneira grande, sei agora. Não havia necessidade disso. Pois não. Mas, o coração das mães é muito descompassado. Achei que estando perto, tudo se tornava mais fácil. Que se me chamassem, ia a correr salvar os meus rebentos do domínio britânico. 🙂

Um cappuccino, um Frappuccino e sete horas depois, esperava eu no hall por eles. O Manuel quando me vê, desata a chorar desalmadamente. A professora aflita, a dizer que ele esteve bem, que participou.. e ele só chorava. E eu percebi porquê. Era o alívio de me ver ali. Tinha acabado o suplicio de passar o dia sem perceber nada. Tento colocar-me no lugar dele e fico com um nó na garganta. Ele, tão pequenino, a sentir-se só. Sei que isto só vai ser complicado agora… se, por algum motivo, vacilarmos, estaremos a dar um passo atrás. E a readaptação vai ser mais difícil ainda. Tento interiorizar que, em breve, não haverá problema nenhum e ele vai estar a falar inglês melhor que todos nós. E mais do que interiorizar, tenho a certeza de que isso vai acontecer.

Acalmados os ânimos, lá fomos buscar a irmã. Maravilhada, enérgica, super-confiante. Esta miúda surpreende-me a cada dia que passa. Sei a filha que tenho e os limites dela. Só posso dizer que não podia estar mais orgulhosa dela: percebe tudo, comunica, faz amigas. Como peixe na água! 🙂

Veio o caminho todo a falar da escola e das coisas que fez, dos novos amigos. Tem uma amiga brasileira, a Eduarda, que não fala inglês. Então ela é a interprete da amiga. Adorou o professor e tudo o que a escola tem para oferecer. E eu não podia estar mais descansada com ela!

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O Manuel a brincar na sala dele.

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A Mariana empenhada no trabalho

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da direita para a esquerda: o director (Mr Jarlath), o prof da Mariana (Mr Cassidy); sentada no chão, a sorrir, a prof do Manuel (Ms Donnelly)

Dia 2. 05 Setembro 2016

O despertador toca à mesma hora. Enquanto tomamos o pequeno almoço o Manuel chora. Que afinal não quer ir à escola, que podia ficar comigo. E o meu coração a apertar. É nestas alturas que não convém vacilar. Temos de ser firmes, mesmo que estejamos a desfazer-nos por dentro.

Mesmo de beicinho, ele foi. Ao chegar à porta da sala, ainda começou a choramingar. A auxiliar veio buscá-lo e ainda nós não tínhamos dado costas ele já tinha parado de chorar. Sabemos que vai custar, no inicio, mas há-de passar.

Ela, como uma adolescente desenrascada, lá foi para a sua sala, cheia de confiança e optimismo. Não me cabe o orgulho no peito.

Desta vez, já não fiz a asneira de ficar de plantão sete horas de seguida. E como tínhamos coisas para fazer, voltei para casa e ocupei o tempo.

À hora da saída, lá estávamos nós à espera. Desta vez, o Manel já não chorou quando nos viu. Mas, notava-se a sensação de alívio que ele estava a sentir por nos ver. Acredito que, aos poucos, se vá sentindo confiante e perceba que estaremos sempre ali, ao fim do dia.

Ela veio o caminho todo a contar o seu dia. Ele, quando sai da escola já não quer falar mais sobre ela. E nós percebemos, respeitamos e vamos dar o tempo necessário.

E ao terceiro dia..

Ele diz-me antes de sair de casa: « depois tu vais lá estar quando eu sair, não vais?» E aí percebemos. O medo dele é que não estejamos lá para o apanhar. O lugar estranho, com a língua estranha assusta-o. Mas, o que mais o preocupa é que não estejamos lá, ao fim do dia. Meu menino. Tão bebé..

Segurei-lhe nas mãos e olhei bem para ele. «Sim, meu amor. Eu vou estar lá sempre. E o pai também. Quando a tua escola terminar, não tens de te preocupar. Nós vamos lá estar.»

Subitamente, no carro, começa a contar que a professora contou a história dos 3 porquinhos. Entrou na escola, fomos até à sala. Nem sequer se despediu de mim. Deu a mão à auxiliar, e entrou na sala. Sem chorar, sem vacilar.

Tudo a compor-se.

*fotos tiradas pela escola e publicadas na página oficial da escola.

O voo do Oryx.

E dirão vocês: os Oryx não voam. Estes sim. Porque estes são especiais. São meus. ❤

Quando eu era miúda, e via aquelas séries de tv americanas, sobre a vida dos adolescentes, pensava que, quando fosse mais crescida, ainda havia de viver aquilo. As escolas com uniformes, os almoços levados de casa, os cacifos. Tudo muito loiro e de olhos azuis. São daquelas parvoíces que julgamos ser o máximo, o topo, a cereja em cima do bolo.

Quando crescemos, reparamos que não. Afinal, a nossa realidade é outra, a nossa cultura não está nem para aí virada. As escolas são muito diferentes das de Beverly Hills. Aqui somos muito mais morenos e menos ricos.

Acontece que a vida dá muitas voltas. Eu não vivi esse ‘sonho’, não pude provar dessa realidade. Mas, os meus filhos sim. E aqui estou eu, às 07h30 da manhã, sentada num café perto da escola. Tenho um cappuccino à frente e o portátil aberto, enquanto escrevo estas linhas. Eles acabaram de  começar o seu ano lectivo, numa escola britânica. Com imensa gente loira, com os cacifos e os almoços de lancheira. E a falar em inglês.

Não consigo ainda perceber o que acharão eles de tudo isto. No fim do dia irei perceber. Por enquanto, só eu tenho os pensamentos e as percepções. Só eu estou para aqui com o coração embrulhado, enquanto eles estão a viver os seus primeiros momentos, numa escola que, há mais de vinte anos atrás, seria a escola dos meus sonhos.

Dizem que os filhos não devem viver os sonhos dos pais, a não ser que sejam eles também os donos desses sonhos. Os meus, sem querer, e sem que eu fizesse de propósito por isso, estão a fazê-lo.

E eu nem sequer sei se seria o sonho deles. Eu nem sequer sei se estamos a fazer a coisa certa. Só queremos o melhor, que fique claro. Só nunca sabemos o que é o melhor, mesmo quando se trata dos nossos filhos. Como podemos ter essa certeza? Podemos ter uma ideia, podemos ler expressões, tentamos adivinhar pensamentos. Mas, a certeza, essa nunca a teremos.

Hoje é o dia do voo maior. Saem debaixo das minhas asas e vão voar sozinhos. Em Portugal, tudo seria mais fácil. A barreira da língua não existe. Se eles chorarem, não vão conseguir explicar porquê; se se sentirem tristes, aflitos, nervosos ou até tímidos, não vão conseguir explicar por palavras o que estão a sentir. Principalmente ele. É preciso que tudo corra bem hoje, para que amanhã seja fácil para ele. O voo dele é mais inseguro. Ele é o bebé.

Ela é a determinada. Ela é optimista. Ela é sonhadora e vê tudo com uma enorme grandeza, dentro daqueles olhos cheios de amor. Ela está na idade de aproveitar tudo com intensidade. As memórias que levará daqui, serão para a vida. Os amigos que fizer aqui vão lembrar-se dela e ela deles. O voo dela vai ser visto de cima, em plenitude e coragem.

Eu estou sempre com os pés na terra. Olhando para o voo deles. Com medo que caiam, que não consigam ou não saibam como bater as asas. Com o coração apertado e acelerado. Com as dúvidas e as incertezas, mas com o maior orgulho de poder dizer que são meus. As minhas crias, os meus rebentos.

Sofremos muito por antecipação, as mães que estão prestes a ver os seus filhos levantar voo. E hoje, estou assim. A sofrer de inquietação, mas descansada porque sei que estão seguros. Descansada porque sei que estão na melhor escola que lhes podemos oferecer. Que começam hoje um voo para o resto das suas vidas. Que podem ainda não saber como o fazer, mas que serão capazes de ver muito mais céu do que eu. Dois Oryx aprendem hoje a voar.

Seguros. Confiantes. E felizes.