O voo do Oryx.

E dirão vocês: os Oryx não voam. Estes sim. Porque estes são especiais. São meus. ❤

Quando eu era miúda, e via aquelas séries de tv americanas, sobre a vida dos adolescentes, pensava que, quando fosse mais crescida, ainda havia de viver aquilo. As escolas com uniformes, os almoços levados de casa, os cacifos. Tudo muito loiro e de olhos azuis. São daquelas parvoíces que julgamos ser o máximo, o topo, a cereja em cima do bolo.

Quando crescemos, reparamos que não. Afinal, a nossa realidade é outra, a nossa cultura não está nem para aí virada. As escolas são muito diferentes das de Beverly Hills. Aqui somos muito mais morenos e menos ricos.

Acontece que a vida dá muitas voltas. Eu não vivi esse ‘sonho’, não pude provar dessa realidade. Mas, os meus filhos sim. E aqui estou eu, às 07h30 da manhã, sentada num café perto da escola. Tenho um cappuccino à frente e o portátil aberto, enquanto escrevo estas linhas. Eles acabaram de  começar o seu ano lectivo, numa escola britânica. Com imensa gente loira, com os cacifos e os almoços de lancheira. E a falar em inglês.

Não consigo ainda perceber o que acharão eles de tudo isto. No fim do dia irei perceber. Por enquanto, só eu tenho os pensamentos e as percepções. Só eu estou para aqui com o coração embrulhado, enquanto eles estão a viver os seus primeiros momentos, numa escola que, há mais de vinte anos atrás, seria a escola dos meus sonhos.

Dizem que os filhos não devem viver os sonhos dos pais, a não ser que sejam eles também os donos desses sonhos. Os meus, sem querer, e sem que eu fizesse de propósito por isso, estão a fazê-lo.

E eu nem sequer sei se seria o sonho deles. Eu nem sequer sei se estamos a fazer a coisa certa. Só queremos o melhor, que fique claro. Só nunca sabemos o que é o melhor, mesmo quando se trata dos nossos filhos. Como podemos ter essa certeza? Podemos ter uma ideia, podemos ler expressões, tentamos adivinhar pensamentos. Mas, a certeza, essa nunca a teremos.

Hoje é o dia do voo maior. Saem debaixo das minhas asas e vão voar sozinhos. Em Portugal, tudo seria mais fácil. A barreira da língua não existe. Se eles chorarem, não vão conseguir explicar porquê; se se sentirem tristes, aflitos, nervosos ou até tímidos, não vão conseguir explicar por palavras o que estão a sentir. Principalmente ele. É preciso que tudo corra bem hoje, para que amanhã seja fácil para ele. O voo dele é mais inseguro. Ele é o bebé.

Ela é a determinada. Ela é optimista. Ela é sonhadora e vê tudo com uma enorme grandeza, dentro daqueles olhos cheios de amor. Ela está na idade de aproveitar tudo com intensidade. As memórias que levará daqui, serão para a vida. Os amigos que fizer aqui vão lembrar-se dela e ela deles. O voo dela vai ser visto de cima, em plenitude e coragem.

Eu estou sempre com os pés na terra. Olhando para o voo deles. Com medo que caiam, que não consigam ou não saibam como bater as asas. Com o coração apertado e acelerado. Com as dúvidas e as incertezas, mas com o maior orgulho de poder dizer que são meus. As minhas crias, os meus rebentos.

Sofremos muito por antecipação, as mães que estão prestes a ver os seus filhos levantar voo. E hoje, estou assim. A sofrer de inquietação, mas descansada porque sei que estão seguros. Descansada porque sei que estão na melhor escola que lhes podemos oferecer. Que começam hoje um voo para o resto das suas vidas. Que podem ainda não saber como o fazer, mas que serão capazes de ver muito mais céu do que eu. Dois Oryx aprendem hoje a voar.

Seguros. Confiantes. E felizes.

Anúncios

One thought on “O voo do Oryx.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s