Saudade.

Sei que não passou muito tempo, mas como boa portuguesa, as saudades são como um fado. Isto não é tristeza, é nostalgia.

Tenho saudades do cheiro da minha terra. De ver o verde ficar dourado. E depois, castanho, até cair. Tenho saudades da minha varanda, de ouvir os cães a ladrar quando passa um gato. E de estender roupa ao frio. Tenho saudades de ir ao forum e encontrar meio-mundo em meia-hora. E saudades de pagar menos de um euro por um café.

Tenho saudades de estar nas escolas dos miúdos em dez minutos ou menos. De tudo ser perto, de não apanhar trânsito a qualquer hora, porque para mim o trânsito em Portugal nunca será trânsito, desde que conheço este.

Tenho saudades do fiambre, do chouriço espanhol, do bacon nas pizzas. De temperar os bifes com vinho branco rasco de pacote. Tenho saudades do mês das feiras, de ir comprar pão-doce e do cheiro das farturas.

Tenho saudades de ligar a tv e ver o Goucha e a Cristina. E de ouvir a Comercial logo pela manhã. E começar o dia a rir com aqueles malucos da radio. Tenho saudades do frango de churrasco.

Tenho saudades do meu vizinho, no alto dos seus 90 anos a meter o bedelho em tudo. Até do talho do supermercado, eu tenho saudades.

Tenho saudades de ver o comboio da CP, a passar. Tenho saudades das andorinhas. E das borboletas. Tenho saudades do meu casacão com pêlo na gola, que deixei pendurado no meu armário em Portugal. Tenho saudades do Cif. E da água de Monchique.

Tenho saudades dos meus amigos..

Tenho saudades da chuva. Tenho saudades de ouvir música nos centros comerciais. Das gargalhadas das pessoas. Saudades de ouvir falar algarvio. Tenho saudades do cheiro do peixe assado e do ar da maresia.

Se eu pudesse mandava engarrafar o cheiro do nosso pão quente, a sair das padarias. E trazia-o para aqui, para cheirar logo pela manhã.

Tenho saudades de dizer ‘bom-dia’ às pessoas. De vez em quando, ainda me engano e respondo ‘obrigada’ e ficam a olhar para mim com um ar confuso. Aos poucos vou começando a pensar em inglês, como se fosse normal…

Quase dois meses depois, descubro que o que sempre li por aí é verdade: o ser humano tem uma capacidade de adaptação incrível. As saudades, por muito grandes que sejam, hão de existir sempre, mesmo que estejamos longe só há alguns dias. Mas, a maneira como lidamos com elas, essa é que é a grande batalha. Ando a contar os dias, para matar a minha. Mesmo sabendo que, logo a seguir, ela há-de renascer…

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