4 meses depois..

… o Natal já lá vai e não tarda estaremos outra vez a preparar essa época. Porque o tempo não pára, muito menos aqui no médio oriente.

Estes quatro meses passaram de uma forma alucinante. É impressionante a quantidade de coisas novas que te podem acontecer no espaço de dias. Aqui, as coisas ganham uma intensidade diferente. O impacto é sempre mais notado, pequenas situações são encaradas de outra forma, vividas com outro sentimento.

Comecei a trabalhar no dia 15 de janeiro de 2017. Curiosamente, na area para a qual estudei e que, em Portugal, era sempre tão difícil de concretizar. Ninguém diria que, neste pequeno país existem tantas pessoas interessadas em aprender a língua portuguesa. Mas, é a mais pura das verdades. Locais, libaneses, turcos, indianos, espanhóis, venezuelanos, canadianos, sul-africanos, sírios.. a lista é extensa. E pelos mais variados motivos. E depois há os meninos portugueses, os filhos dos expatriados lusos, que nunca tiveram o ensino em português, ou aqueles que tendo tido, perderam o contacto com a língua escrita. Trabalho não falta, é uma realidade.

Contudo, aprendi que no Qatar, não importa se mandas 10 ou 100 curriculuns como resposta aos anúncios de emprego. Aqui tens de ter contactos. It’s all about connections. Alguém há de conhecer alguém que precise de mais um funcionário. Alguém conhece sempre alguém que trabalha nos recursos humanos. É como uma teia gigante de favores e conhecimentos. Aqui não vale muito a pena enviar um email com o curriculum. Aqui tens de bater às portas e fazeres saber que podes e queres trabalhar.

Aprendi que neste país as coisas demoram. Demoram sempre muito. Inchallah vai acontecer, mesmo que não se saiba como ou tendo a certeza de que não vão fazer nada por ti, inchallah é virgula e ponto final. Insistir e persistir são verbos que tens de aprender a conjugar diariamente.

Aprendi que há sempre qualquer coisa que nos une às pessoas e que o verdadeiro sentido da palavra amizade é difícil de definir. Aqui senti sempre muito mais a sensação de cuidar dos outros e a noção de preocupação, quando, por exemplo, a professora do Manel veio fazer-nos companhia ao hospital, quase 5 horas, trazendo-nos café e bolos. Ou quando, num imprevisto, a mãe da amiga da tua filha trata de te arranjar almoço e cuida de que nada falte aos teus enquanto tu não podes estar presente.

Este país é o país dos extremos, que está sempre em movimento e mudança. Acordas um dia, de manhã, e um novo edifício está construído. É o país dos imprevistos, dos insólitos, como receberes um telefonema às nove da noite, a oferecerem-te emprego, numa entrevista em que nem sequer te estão a ver e a pedirem-te que comeces dali a dois dias.

Aprendi a olhar para esta realidade com outros olhos e a deixar de me chocar. Apenas rir e aproveitar o que posso levar daqui. Aprendi a prever o que vai na cabeça desta gente quando se agarra a um volante e já quase vou a todo o lado sem precisar de GPS.

Aprendi, sobretudo que, as faltas que vou sentindo, vão-se colmatando com outros ganhos, mas que nunca nada é igual àquilo que é nosso, nem nenhum lugar do mundo se compara àquele que nos viu crescer. Aprendi que consegues adaptar-te a qualquer coisa sem perderes as tuas raízes e os teus ideais. E todos os dias continuo a aprender uma coisa nova.

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Natal em Doha

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Sou uma pessoa que gosta de viver o espírito do Natal. Este ano fez-me confusão estar a sentir calor, quando toda a minha vida vivi esta época enrolada em mantas, pijamas quentinhos, botas e cachecóis.

Mais pelos miúdos (e também por mim, confesso), fomos comprar uma árvore de Natal e enfeites. Com a sorte a bafejar, encontrei um presépio completo e tive de o trazer comigo. Dizem que não é fácil encontra-los em Doha. Quando montámos a árvore, ainda não sabíamos que nos seria possível passar o Natal em Portugal. Então, todo este momento foi especial. Seria o nosso primeiro Natal no Médio Oriente. No deserto, no calor.

Os nossos amigos indianos, quando nos visitaram em casa, quiseram tirar uma fotografia junto da árvore. Para eles não faz sentido nenhum, mas acham bonito as cores, as bolas, as luzes.

Eu senti nostalgia pelos natais passados, pelos presentes que se colocam debaixo da árvore, pela magia que se vive sempre nesta altura. Mas, comecei a sentir realmente que a coisa mexia comigo, quando me comecei a aperceber que o tempo estava a passar e eu não teria a minha família mais próxima unida. E o Natal é união, é família. É certo que é quando o homem quiser, mas ninguém pode condenar a falta que as pessoas nos fazem nesta época.

De qualquer forma, fiquei feliz por perceber que neste país sente-se a presença da época a chegar. É certo que não há iluminações pela cidade, nem música de Natal a ecoar pelos centros comerciais. Mas, talvez devido à influência de tantos expatriados que habitam nesta cidade, se vá sentindo que a época está a chegar. Nos hipermercados há decorações à venda e bolos típicos de Natal. E nos hotéis há programas de festas para estes dias. Nem tudo é mau, nem tão radical que não nos dê a hipótese de festejar as nossas tradições.

Este ano, o primeiro dos quatro juntos no deserto, tivemos a sorte de poder viajar ao nosso país e festejar com os nossos. Para o ano, só Deus saberá.

Sugar & Spice – como não ficar encantado com este lugar..

Quando vemos esta casinha, ao longe, não conseguimos imaginar o que esconde lá dentro. Situada no Aspire Park, esta casa de bonecas, é um sitio onde se pode tomar o pequeno almoço, ou almoçar, ou beber só um café, ou fazer um lanche gigante, beber só um sumo, comer um gelado ou jantar. Podemos consumir no local ou fazer takeaway. Há para todos os gostos e necessidades.

Nós entrámos para lanchar. Eu não queria acreditar no que os meus olhos viam, dentro daquela casinha de madeira.

Mal entramos, parece que estamos a entrar na casa de alguém. Mas, esse alguém vive nos Estados Unidos e tem uma casa muito característica. Faz lembrar a casa das avós fofinhas dos filmes melodramáticos de Hollywood. As madeiras, os móveis, todo aquele cenário vintage. A forma como nos apresentam a comida, a decoração, a música de fundo. Tudo nos leva a milhares de quilómetros de distância do deserto.

Tivemos a sorte de ficar numa mesa perto de uma janela, e a luz do fim da tarde tornava a cena ainda mais idílica. Já no fim do lanche, depois de ter comido uma tarte de maça com gelado de baunilha, que estava maravilhosa, fique surpresa e agradada, porque em música de fundo, passava isto: Creep 

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A ideia original deste sítio (que já se expandiu para mais dois lugares em Doha), pertence a Saleh Alayan e à sua paixão pela pastelaria. Podem ver a história, os menus e galeria de fotos na página oficial – Sugar & Spice – ou através do Instagram.

Zekreet beach

Fomos para Oeste do país. Perto de Dukhan, fica esta praia: Zekreet. Mais uma vez, é o deserto que encontra o mar do Golfo Pérsico. Aqui, a areia é quase pó. E para entrar na água é aconselhável ter uma protecção nos pés, por causa das pedras. Não é o tipo de praia a que estejamos habituados. Contudo, a vista é deslumbrante e o pôr-do-sol é fantástico.

Ao fim de semana, é muito comum, locais e expatriados rumarem às praias. É vê-los estacionar os jipes à beira-d’água, as cadeiras espalhadas na areia, a atear o fogo para fazer o churrasco. Depois, as crianças brincam na água e na areia, jogam à bola. Soltam-se papagaios ao vento e as pessoas convivem e comem. Vi um grupo delas a entrar na água, não se despem, nem sequer descobrem o cabelo. Mas riem-se e falam alto enquanto chapinham e brincam entre si. Não posso, nesse momento, desconfiar que estejam incomodadas por não poder tomar um banho livremente. Porque não me parecem minimamente incomodadas. Pelo contrário, sorriem, brincam, parecem felizes.

Dou por mim ainda a questionar este choque cultural. Esta maneira de estar no mundo.

Ficámos por ali. Um dia iremos mais longe. A Film City é já ali à frente. 🙂

Um teste à paciência.

 Já aqui o disse antes: conduzir no Qatar requer sangue frio e uma grande dose de fé. Todos os dias, a nossa paciência e auto-controlo são postos à prova.

Para 99,9% dos condutores, o conceito de faixa de rodagem é algo comparável à física quântica. Difícil de entender! Uma pessoa chega mesmo a acreditar que, eles pintaram todas aquelas linhas nas estradas, porque só lá estar o alcatrão preto era muito deprimente. O ponto de vista é: isto é uma estrada, enquanto o carro (e quem diz carro, diz camião com atrelado, por exemplo) couber, é para seguir caminho. Não há cá essa parvoíce de fora-de-mão. Quem quiser que se desvie.

Prioridades, limites de velocidade, civismo são tudo coisas que não fazem parte do código da estrada desta gente. Vale tudo: crianças ao volante, conduzir enquanto se tira uma selfie, pular passeios quando se está à espera numa fila há mais de trinta segundos, estacionar em segunda e terceira fila, andar em sentido contrário. Todo um cardápio de contra-ordenações graves e muito graves, que fariam as delícias dos cofres da Brigada de Trânsito em Portugal.

Uma pessoa normal, a conduzir aqui, é bom que tenha um estômago forte e um sistema nervoso sem falhas. De outro modo, é bem provável que uma ou outra úlcerazita comece a dar sinal. Ainda para mais quando, não nos é permitido por lei, extravasar a nossa raiva e indignação, através do típico dedo do meio ou qualquer outro gesto próprio de quem só tem vontade de começar a distribuir chapada.

Há dias, um exímio portador de carta de condução deste país, atravessou na diagonal sete faixas de rodagem. De um lado ao outro, cá sem preocupações ou medos. Nem um pisca ligado, sequer. Quase que aposto que nem se dignou a olhar para os espelhos. É andar para a frente e quem vier atrás que trave.

Só há uma coisa que é respeitada aqui, na maior parte das vezes: o sinal vermelho. Assim que o verde começa a piscar, é vê-los a travar (ou acelerar conforme a distância a que estão do sinal), porque a multa pela passagem ao sinal vermelho é assim para o puxada. Fora isso, suponho que o manual teórico das aulas de condução sirva para algumas coisas, menos para ser lido ou levado em conta.

Por isso, todos os dias, quando vou pegar no carro para conduzir, quase que faço um ritual de equilíbrio dos chakras. Toda eu sou paz e amor. Contudo, temo o pior: uma pessoa para se safar nesta selva, tem de desaprender tudo aquilo que aprendeu. O célebre ditado, quando não os podes vencer, junta-te a eles, é tão certo. Tenho medo, muito medo, de já não saber conduzir quando voltar às estradas portuguesas. E tenho medo de ser presa! Porque a conduzir em Portugal como se conduz no Qatar, é certinho e direitinho que sou constituída arguida por homicídio voluntário.

o primeiro ano.

Se estivesse em Portugal, estaria a vestir casacos, a calçar botas. Sou a friorenta da casa.

Aqui, no deserto é verão. Agora já se começa a pensar em ir à praia. Já sabe bem sair à rua. Vai amanhecendo mais tarde e anoitecendo mais cedo. Contudo, a vida não pára.

Jà entrámos na rotina. Agora, já posso conduzir aqui (e o assunto dava para muitos textos, que hei-de partilhar). Embora não sinta as asas cortadas, o que é certo é que, a maioria das vezes, nem sei bem onde ir. Os miúdos na escola, o marido no trabalho e eu, na grande maioria dos dias, prefiro ficar por casa.

Hoje faz um ano que o Pedro chegou aqui. Num instante se passaram doze meses, que isto do tempo – já o disse muitas vezes -, é sempre muito relativo mas, a maior parte das vezes, passa a voar. A nossa experiência e aventura no deserto tem sido enriquecedora. Com todos os altos e baixos, com todos os contratempos, as saudades. É incrível a quantidade de coisas que podem acontecer no espaço de um ano. A quantidade de lugares novos que já vimos, as pessoas que já conhecemos, aquilo que já vivemos.

Se me dissessem que ia ser assim, talvez eu não acreditasse. Mas foi. A vida tem sempre formas muito peculiares de te ensinar como se vive. E aqui, todos os dias aprendo alguma coisa nova. Do mundo e de mim mesma. Portanto, se há algo de bom a retirar deste ano, pode muito bem ser isto: a aprendizagem.

Mas, o que mais tenho a agradecer, fazendo esta retrospectiva, é sem sombra de dúvidas uma coisa: os amigos. Vir para tão longe fez-me ver quem eram realmente os que tinha perto. E deu-me a oportunidade de fazer novos. E de perceber que, não importa há quanto tempo tu conheces as pessoas, ou se tens laços de sangue com elas. Quem te quer como amigo, mostra-o e tu sentes.

Aqui, já conheci pessoas maravilhosas a quem tenho o privilégio de chamar de amigo, que me tratam como família e que levarei sempre no meu coração, para onde quer que vá.

E se tivesse de escolher apenas uma coisa boa, para retratar este primeiro ano de aventura, teria de escrever aqui os nomes daqueles que me ajudaram (e continuam a ajudar) a sentir-me bem e querida. Não importa para onde vais, nem quanto tempo passa. O que importa são os laços que fazes com quem te cruzas. E o que fica para a posteridade..

Saudade.

Sei que não passou muito tempo, mas como boa portuguesa, as saudades são como um fado. Isto não é tristeza, é nostalgia.

Tenho saudades do cheiro da minha terra. De ver o verde ficar dourado. E depois, castanho, até cair. Tenho saudades da minha varanda, de ouvir os cães a ladrar quando passa um gato. E de estender roupa ao frio. Tenho saudades de ir ao forum e encontrar meio-mundo em meia-hora. E saudades de pagar menos de um euro por um café.

Tenho saudades de estar nas escolas dos miúdos em dez minutos ou menos. De tudo ser perto, de não apanhar trânsito a qualquer hora, porque para mim o trânsito em Portugal nunca será trânsito, desde que conheço este.

Tenho saudades do fiambre, do chouriço espanhol, do bacon nas pizzas. De temperar os bifes com vinho branco rasco de pacote. Tenho saudades do mês das feiras, de ir comprar pão-doce e do cheiro das farturas.

Tenho saudades de ligar a tv e ver o Goucha e a Cristina. E de ouvir a Comercial logo pela manhã. E começar o dia a rir com aqueles malucos da radio. Tenho saudades do frango de churrasco.

Tenho saudades do meu vizinho, no alto dos seus 90 anos a meter o bedelho em tudo. Até do talho do supermercado, eu tenho saudades.

Tenho saudades de ver o comboio da CP, a passar. Tenho saudades das andorinhas. E das borboletas. Tenho saudades do meu casacão com pêlo na gola, que deixei pendurado no meu armário em Portugal. Tenho saudades do Cif. E da água de Monchique.

Tenho saudades dos meus amigos..

Tenho saudades da chuva. Tenho saudades de ouvir música nos centros comerciais. Das gargalhadas das pessoas. Saudades de ouvir falar algarvio. Tenho saudades do cheiro do peixe assado e do ar da maresia.

Se eu pudesse mandava engarrafar o cheiro do nosso pão quente, a sair das padarias. E trazia-o para aqui, para cheirar logo pela manhã.

Tenho saudades de dizer ‘bom-dia’ às pessoas. De vez em quando, ainda me engano e respondo ‘obrigada’ e ficam a olhar para mim com um ar confuso. Aos poucos vou começando a pensar em inglês, como se fosse normal…

Quase dois meses depois, descubro que o que sempre li por aí é verdade: o ser humano tem uma capacidade de adaptação incrível. As saudades, por muito grandes que sejam, hão de existir sempre, mesmo que estejamos longe só há alguns dias. Mas, a maneira como lidamos com elas, essa é que é a grande batalha. Ando a contar os dias, para matar a minha. Mesmo sabendo que, logo a seguir, ela há-de renascer…