E que comecem as aulas..

Dia 1 . 04 de Setembro de 2016

05h40 – toca o despertador. Todos de pé. Eles muito excitados porque tinha chegado o dia. Andaram a falar nisto durante dias, semanas. A escola nova. Amigos novos. Toda uma realidade que eles desconheciam. Como seria, o que aconteceria? Mochilas prontas, lancheiras e uniformes vestidos, lá fomos a caminho daquele que será o espaço onde mais vão crescer e aprender.

06h45 – Ao portão, recebe-nos o director da escola. Toda a gente bem disposta, a Mariana a radiar felicidade. O Manuel já a acusar o que se seguiria. Fomos primeiro deixá-lo a ele, na Recepcion. Uma professora novinha esperava por nós. Miss Donnelly é o nome dela (e ele já sabe dizer, com um certo sotaque british!). Deu-me um abraço e ficou a fazer beicinho, mas ficou. Depois, foi a vez dela. Tem um professor, Mr Cassidy. Na turma, ao todo são 9 alunos, contando com ela. Lá a deixei na sala, toda feliz.

14184491_1832983283645949_1284543368068037262_n

E saí. Ainda sem me dar muito bem conta do que estava a acontecer. Esqueçam todos os dramas de deixar os vossos filhos numa escola nova em Portugal. Só quem passa por esta experiência, percebe o que quero dizer. Não basta o nervosismo de os deixar, senão ter a certeza de que, pelo menos o pequeno, não percebe nada do que se passa à volta dele. Que não se vai conseguir exprimir, que não vai perceber o que lhe dizem, que não vai com facilidade brincar e aproveitar todos os excelentes recursos que a escola oferece, porque não sabe muito bem o que ali está a fazer. Conseguem imaginar a minha angustia? Multipliquem por 9 isso que imaginaram e não chegarão lá perto..

Em frente à escola, está um hotel. Fiquei lá sentada no bar durante as sete horas que se seguiram. Não me peçam para descrever o que fiz ou senti. Acho que só fiquei ali, sentada, a olhar e contar os minutos que faltavam. Asneira grande, sei agora. Não havia necessidade disso. Pois não. Mas, o coração das mães é muito descompassado. Achei que estando perto, tudo se tornava mais fácil. Que se me chamassem, ia a correr salvar os meus rebentos do domínio britânico. 🙂

Um cappuccino, um Frappuccino e sete horas depois, esperava eu no hall por eles. O Manuel quando me vê, desata a chorar desalmadamente. A professora aflita, a dizer que ele esteve bem, que participou.. e ele só chorava. E eu percebi porquê. Era o alívio de me ver ali. Tinha acabado o suplicio de passar o dia sem perceber nada. Tento colocar-me no lugar dele e fico com um nó na garganta. Ele, tão pequenino, a sentir-se só. Sei que isto só vai ser complicado agora… se, por algum motivo, vacilarmos, estaremos a dar um passo atrás. E a readaptação vai ser mais difícil ainda. Tento interiorizar que, em breve, não haverá problema nenhum e ele vai estar a falar inglês melhor que todos nós. E mais do que interiorizar, tenho a certeza de que isso vai acontecer.

Acalmados os ânimos, lá fomos buscar a irmã. Maravilhada, enérgica, super-confiante. Esta miúda surpreende-me a cada dia que passa. Sei a filha que tenho e os limites dela. Só posso dizer que não podia estar mais orgulhosa dela: percebe tudo, comunica, faz amigas. Como peixe na água! 🙂

Veio o caminho todo a falar da escola e das coisas que fez, dos novos amigos. Tem uma amiga brasileira, a Eduarda, que não fala inglês. Então ela é a interprete da amiga. Adorou o professor e tudo o que a escola tem para oferecer. E eu não podia estar mais descansada com ela!

14237479_1832983643645913_1816744571695296019_n

O Manuel a brincar na sala dele.

14191973_1832984016979209_6796926997867014787_n

A Mariana empenhada no trabalho

14212188_1833569160254028_2148799356073626956_n

da direita para a esquerda: o director (Mr Jarlath), o prof da Mariana (Mr Cassidy); sentada no chão, a sorrir, a prof do Manuel (Ms Donnelly)

Dia 2. 05 Setembro 2016

O despertador toca à mesma hora. Enquanto tomamos o pequeno almoço o Manuel chora. Que afinal não quer ir à escola, que podia ficar comigo. E o meu coração a apertar. É nestas alturas que não convém vacilar. Temos de ser firmes, mesmo que estejamos a desfazer-nos por dentro.

Mesmo de beicinho, ele foi. Ao chegar à porta da sala, ainda começou a choramingar. A auxiliar veio buscá-lo e ainda nós não tínhamos dado costas ele já tinha parado de chorar. Sabemos que vai custar, no inicio, mas há-de passar.

Ela, como uma adolescente desenrascada, lá foi para a sua sala, cheia de confiança e optimismo. Não me cabe o orgulho no peito.

Desta vez, já não fiz a asneira de ficar de plantão sete horas de seguida. E como tínhamos coisas para fazer, voltei para casa e ocupei o tempo.

À hora da saída, lá estávamos nós à espera. Desta vez, o Manel já não chorou quando nos viu. Mas, notava-se a sensação de alívio que ele estava a sentir por nos ver. Acredito que, aos poucos, se vá sentindo confiante e perceba que estaremos sempre ali, ao fim do dia.

Ela veio o caminho todo a contar o seu dia. Ele, quando sai da escola já não quer falar mais sobre ela. E nós percebemos, respeitamos e vamos dar o tempo necessário.

E ao terceiro dia..

Ele diz-me antes de sair de casa: « depois tu vais lá estar quando eu sair, não vais?» E aí percebemos. O medo dele é que não estejamos lá para o apanhar. O lugar estranho, com a língua estranha assusta-o. Mas, o que mais o preocupa é que não estejamos lá, ao fim do dia. Meu menino. Tão bebé..

Segurei-lhe nas mãos e olhei bem para ele. «Sim, meu amor. Eu vou estar lá sempre. E o pai também. Quando a tua escola terminar, não tens de te preocupar. Nós vamos lá estar.»

Subitamente, no carro, começa a contar que a professora contou a história dos 3 porquinhos. Entrou na escola, fomos até à sala. Nem sequer se despediu de mim. Deu a mão à auxiliar, e entrou na sala. Sem chorar, sem vacilar.

Tudo a compor-se.

*fotos tiradas pela escola e publicadas na página oficial da escola.

O voo do Oryx.

E dirão vocês: os Oryx não voam. Estes sim. Porque estes são especiais. São meus. ❤

Quando eu era miúda, e via aquelas séries de tv americanas, sobre a vida dos adolescentes, pensava que, quando fosse mais crescida, ainda havia de viver aquilo. As escolas com uniformes, os almoços levados de casa, os cacifos. Tudo muito loiro e de olhos azuis. São daquelas parvoíces que julgamos ser o máximo, o topo, a cereja em cima do bolo.

Quando crescemos, reparamos que não. Afinal, a nossa realidade é outra, a nossa cultura não está nem para aí virada. As escolas são muito diferentes das de Beverly Hills. Aqui somos muito mais morenos e menos ricos.

Acontece que a vida dá muitas voltas. Eu não vivi esse ‘sonho’, não pude provar dessa realidade. Mas, os meus filhos sim. E aqui estou eu, às 07h30 da manhã, sentada num café perto da escola. Tenho um cappuccino à frente e o portátil aberto, enquanto escrevo estas linhas. Eles acabaram de  começar o seu ano lectivo, numa escola britânica. Com imensa gente loira, com os cacifos e os almoços de lancheira. E a falar em inglês.

Não consigo ainda perceber o que acharão eles de tudo isto. No fim do dia irei perceber. Por enquanto, só eu tenho os pensamentos e as percepções. Só eu estou para aqui com o coração embrulhado, enquanto eles estão a viver os seus primeiros momentos, numa escola que, há mais de vinte anos atrás, seria a escola dos meus sonhos.

Dizem que os filhos não devem viver os sonhos dos pais, a não ser que sejam eles também os donos desses sonhos. Os meus, sem querer, e sem que eu fizesse de propósito por isso, estão a fazê-lo.

E eu nem sequer sei se seria o sonho deles. Eu nem sequer sei se estamos a fazer a coisa certa. Só queremos o melhor, que fique claro. Só nunca sabemos o que é o melhor, mesmo quando se trata dos nossos filhos. Como podemos ter essa certeza? Podemos ter uma ideia, podemos ler expressões, tentamos adivinhar pensamentos. Mas, a certeza, essa nunca a teremos.

Hoje é o dia do voo maior. Saem debaixo das minhas asas e vão voar sozinhos. Em Portugal, tudo seria mais fácil. A barreira da língua não existe. Se eles chorarem, não vão conseguir explicar porquê; se se sentirem tristes, aflitos, nervosos ou até tímidos, não vão conseguir explicar por palavras o que estão a sentir. Principalmente ele. É preciso que tudo corra bem hoje, para que amanhã seja fácil para ele. O voo dele é mais inseguro. Ele é o bebé.

Ela é a determinada. Ela é optimista. Ela é sonhadora e vê tudo com uma enorme grandeza, dentro daqueles olhos cheios de amor. Ela está na idade de aproveitar tudo com intensidade. As memórias que levará daqui, serão para a vida. Os amigos que fizer aqui vão lembrar-se dela e ela deles. O voo dela vai ser visto de cima, em plenitude e coragem.

Eu estou sempre com os pés na terra. Olhando para o voo deles. Com medo que caiam, que não consigam ou não saibam como bater as asas. Com o coração apertado e acelerado. Com as dúvidas e as incertezas, mas com o maior orgulho de poder dizer que são meus. As minhas crias, os meus rebentos.

Sofremos muito por antecipação, as mães que estão prestes a ver os seus filhos levantar voo. E hoje, estou assim. A sofrer de inquietação, mas descansada porque sei que estão seguros. Descansada porque sei que estão na melhor escola que lhes podemos oferecer. Que começam hoje um voo para o resto das suas vidas. Que podem ainda não saber como o fazer, mas que serão capazes de ver muito mais céu do que eu. Dois Oryx aprendem hoje a voar.

Seguros. Confiantes. E felizes.

Estudar no Qatar

Antes de mais, quero salientar que, tendo dois filhos em idade escolar, este foi um dos principais assuntos que discutimos, antes da partida do Pedro, para o Qatar. Seria uma mais-valia, estaríamos a sujeitar os nossos filhos a um sistema de ensino completamente diferente, quais seriam os prós e os contras de estudar no estrangeiro?

Procurar uma escola em Doha pode ser uma autêntica dor de cabeça. Apesar da escolha já ser muita, o processo pode ser demorado e dispendioso. Especialmente, para quem vem do estrangeiro.

Ainda antes de decidirmos qual seria a escola dos nossos filhos, fizemos várias pesquisas. Nisto, o Google faz milagres! À distância de um clique, podemos ter acesso a quase toda a informação necessária. Portanto, o meu conselho para quem está a pensar mudar-se para o Qatar com filhos em idade escolar, é que pesquisem muito, contactem, peçam esclarecimentos, não se deixem ficar pela primeira opção. Porque, às vezes, mesmo ali ao lado, pode estar a escola ideal para a sua criança!

De acordo com a Wikipedia, com dados oficiais provenientes do governo do Qatar, datados de Julho de 2015, existem aproximadamente 338 escolas a operar no país. Independentes, Nacionais e Internacionais, para ambos os géneros ou só para rapazes ou raparigas, há para todos os gostos, com vários curriculum de ensino (normalmente o britânico, o americano, o finlandês, o indiano, o norueguês, o alemão, o canadiano..). É bem provável que esse número tenha aumentado consideravelmente, pois novas escolas estão sempre a ser construídas. A dos nossos filhos, por exemplo, em funcionamento desde o início deste ano, ainda não consta desses números.

Primeiro aspecto a ter em conta: Quanto vai custar? A sua empresa vai conceder-lhe apoio para os estudos dos seus dependentes? Se sim, convém ter a certeza de todos os valores concedidos e ler todas as entrelinhas do contrato. Mais vale jogar pelo seguro!

As despesas com a escola vão ser avultadas: há um preço para a inscrição, um para o registo na escola, há as tuitions fees (mensalidades normalmente pagas por trimestre), o fardamento e outras quantias relativas a actividades extra-curriculares, por exemplo. É imprescindível fazer as contas ao orçamento, na hora de escolher uma escola. Para se ter uma ideia, para o jardim-escola (pré-primária) o valor anual pode rondar entre os 17000QR e os 25000QR, dependendo das escolas. Já os alunos dos anos mais elevados na secundária, podem ter de pagar por ano valores entre os 40000QR e os 77000QR.

Segundo aspecto: a escolha do curriculum. Um curriculum é nada mais, nada menos, que o método de ensino utilizado em determinada escola/país. Se a escola tiver um curriculum americano, espera-se que o método seja o utilizado oficialmente nos Estados Unidos. De acordo com o nosso país de origem – Portugal, o curriculum que mais se assemelha (embora com algumas diferenças grandes) será o britânico. De qualquer forma, a escolha é variada, na altura de escolher onde as crianças estudarão. Vale a pena consultar as informações sobre os curriculum e analisar cuidadosamente. Talvez um método de ensino completamente diferente do que é utilizado no nosso país consiga tirar o melhor partido académico dos nossos filhos. Ou então, os pais podem preferir que os filhos continuem com o mesmo método de ensino que tinham no seu país de origem. Portanto, na hora de escolher, as opções são várias e podem facilmente recair para os gostos pessoais. Não há problema nenhum nisso: apenas devemos ter a certeza de que estamos a fazer a escolha certa!

Aqui → Ministry of Education vão poder encontrar algumas informações sobre os vários curriculum, escolas, dados estatísticos… enfim, quase toda a informação que precisarem saber. Relembro que o Google é um dos melhores companheiros para quem quer saber o que quer que seja. Basta colocar «schools in Qatar» no motor de busca e uma lista interminável é-nos apresentada. A maior parte das escolas têm website com grande parte das informações necessárias (curriculum, datas de inscrição, tuitions fees, horários, etc). Portanto, nada como passar um serão agradável na procura da melhor escola!

Terceiro aspecto a ter em conta: visitar a escola. Ou várias! Uma vez no país, para além de todo o trabalho de casa feito em termos de pesquisa e contas ao orçamento, uma das questões mais importantes é a visita ao local. Nada como ver com os seus próprios olhos o sitio onde as crianças vão passar grande parte do dia.

Os principais aspectos a ter em conta serão: condição das infraestruturas, limpeza, estado dos equipamentos, comodidades e claro, conhecer os responsáveis. Normalmente, as escolas possuem um gabinete ou alguém designado para acompanhar os pais nas primeiras visitas às instalações. Isso é importante e mostra que a escola se esforça por manter uma imagem de recepção moderna, cuidada e orientada. Mas, se para além dessa pessoa/guia, tivermos oportunidade de conhecer algum professor e o director (principal) da escola, tanto melhor. É importante trocar opiniões e tentar ter um feedback sobre os valores e orientações ministrados. Afinal de contas, serão eles os responsáveis pela educação académica dos nossos filhos.

É importante perceber quais as ofertas complementares que a escola oferece: refeições, transporte, actividades extra-curriculares, apoio ao estudo, etc.

Por ultimo, mas igualmente importante: o ensino faz-se em inglês. O que, à partida, pode parecer um problema, não tarda em ser um benefício. A maior parte das escolas está preparada para receber os filhos dos expats, que na sua maioria, não têm o inglês como língua materna. Logo, professores especializados em língua inglesa para estrangeiros estão lá para ajudar. Algumas escolas podem pedir um teste para determinar o nível de inglês do aluno, que normalmente é pago pelos pais.

O facto de a criança não falar inglês, poderá ser um obstáculo de início, mas a experiência diz que facilmente conseguem aprender a língua. Sendo esta a língua universal para contextos internacionais, é uma grande mais-valia ser um advanced speaker em inglês.

Esteja preparado para: as aulas começarem no fim de Agosto ou principio de Setembro; o horário da escola começar verdadeiramente cedo e acabar também cedo; algumas escolas fazerem testes de admissão aos alunos e pedirem relatórios ou recomendações da anterior escola; as listas de espera para as escolas mais populares serem imensamente extensas; e a burocracia ser chata e demorada.

Boa sorte!