Parar, apitar e comer.

aqui falei de Matar Qadeem e das suas curiosas maravilhas. Ou nem tão maravilhosas quanto isso!

Hoje, venho mostrar-vos o que se pode fazer quando se sofre de preguiça crónica! Imaginem o cenário: estão a conduzir e dá-vos uma fome de qualquer coisa. A nós deu-nos de guloseimas, de coisas doces. Então, basta parar o carro, apitar e lá vem o rapaz à janela fazer o pedido.

Nem sequer saímos do carro. O cúmulo de quem não quer fazer nada, mas quer comer.

Passados uns minutos lá chega o nosso pedido: uma paratha com Nutella e dois sumos de Laranja natural.


Tudo vem perfeitamente acondicionado para se poder comer no carro sem fazer porcaria lá dentro! Os copos de sumo vêm selados e as palhinhas são demasiado grossas para impedir que derrame. A paratha vem numa caixa que mantém o calor e, ao mesmo tempo protege os nossos estofos e roupa de migalhas e pingos de chocolate!

E é isto! Se não aguentas a fome comes imediatamente no carro; se aguentas mais um pouco, levas para casa. Eu não resisti ao cheirinho da paratha quentinha e comi no carro. Deixei o sumo para beber em casa! 🙂

O turco lá da rua

O Pedro vai lá, de vez em quando, buscar comida para levar para casa, ou para comer no restaurante. A primeira vez que comi alguma coisa de lá, foi quando fizemos um jantar em casa e ele foi buscar pão e humus.

Depois, houve um dia que trouxe comida. Não posso dizer que é má, porque não é. De comida turca, talvez possa ter como comparação o meu restaurante preferido em Doha, o Sukar Pasha. E como eu acho que não há comparação nenhuma com o Sukar, em lado nenhum do mundo onde eu tenha comido, portanto, elevo bastante a fasquia e as expectativas de qualquer outro restaurante.

Mas, o propósito deste post não é, de forma alguma, comparar o incomparável. Gostava que vissem como pode ser divertido escolher o que comer. Para além de achar que, para uma cidade com o poder de compra tão elevado, podemos encontrar sítios onde comer por menos dinheiro que no Algarve.

1b5e7004af0015989663ff8941f64ecd

1ba1ed77931304a63c04f5ea11240f34

2197e23bda1e308c4ae923ff27e22048

2971346c07e24d9c42497858389d2338

O prato mais caro custa 50QR. São cerca de 12,5€. Um chá custa 0,25€.Que vos parece? O meu prato preferido é o Sheesh Tawook (ou Shish Taouk, que penso ser a forma correcta de se escrever!), pedacinhos de peito de frango, feitos num churrasco, condimentados numa mistura de especiarias, que o deixa com sabor a fumado, mas ligeiramente picante. Uma delicia! A minha filha adora o Lebhna com queijo, eu adoro o pão deles! Por 7QR (1,75€) podem comer um enorme Shwarma de Galinha (e garanto-vos que não ficarão com fome) ou pedir uma Turkish Pie e uma Coca-cola e fazem a festa! 🙂

Eu disse-vos, Matar Qadeem é um mundo e este fica mesmo logo no ínicio da rua; não há como enganar!

Se quiseres impressionar uma rapariga, podes trazê-la a Matar Qadeem.

Assim que cheguei a Doha pela primeira vez, e depois de ter saído do aeroporto, fui obviamente conhecer a minha casa no Médio Oriente. Dito assim, até parece que somos uma família milionária, com casa no Algarve e no Qatar!

O meu marido alojou-se em Barwa, quando chegou ao Qatar. Barwa é uma pequena localidade muito perto de Doha, onde qualquer pessoa gostaria de morar, pela sua tranquilidade, pela sua arquitectura moderna. Faz lembrar uma grande urbanização, já que os prédios são todos iguais. É tudo muito novo, amplo, largos passeios, campos relvados onde as crianças brincam e os adultos fazem churrascos, calmo. Um lugar apelativo. Passados três meses, mudou-se para o alojamento permanente, dado pela empresa. Foi parar a Matar Qadeem.

Doha divide-se em várias áreas ou freguesias (se bem que não acredito que exista o conceito de freguesia no Qatar), ao estilo de tantas grandes cidade por esse mundo fora. Matar Qadeem fica na Old Airport area. Está relativamente próximo do centro e é basicamente uma zona da cidade mais antiga, essencialmente residencial, com uma rua principal, de mais ou menos uns dois quilómetros, onde se encontra o comércio.

E, meus amigos, quando eu me refiro a comércio, eu basicamente quero referir-me a tudo o que possam imaginar. Restaurantes (ou espécies de casas onde se come não se sabe o quê), mercearias, padarias, lavandarias, lojas de roupa, lojas de telemóveis, lojas de desporto, farmácias, pastelarias, lojas de doces, lojas de especiarias, cabeleireiros para elas, cabeleireiros para eles, oficinas, lojas de espelhos, lojas de mobiliário, lojas de brinquedos, papelarias, garagens onde lavam automóveis, agências de viagens, rent-a-cars, perfumarias, casas de chá, casas de sumos, talhos, joalharias. E se escrevi no plural é porque, não existe só um tipo de estabelecimento destes naquela rua. Há aos pares, às dezenas, são como cogumelos. Onde há um buraco livre, monta-se um negócio. Lojas de telemóveis e acessórios são às dezenas, umas seguidas das outras. Uma loucura impressionante, porque seria de esperar que estivessem vazias, mas estão cheias. Parece que uma não repete o produto que a outra tem, tal não é a concorrência que fazem.

No momento em que o meu marido, a rir, me disse: «Estás preparada? Vamos entrar em Matar Qadeem.», eu juro que pensei que ele estivesse a exagerar. Não estava. Se querem mesmo impressionar uma rapariga, levem-na àquela rua. Só não esperem que ela retribua o gesto com carinho e compreensão. Durante os largos minutos (sim, Matar Qadeem em hora de ponta – que é a qualquer hora – consegue ser um pesadelo para atravessar de carro) em que percorríamos a rua, devo ter ganho uns vinte cabelos brancos e uma paralisia temporária na face devido aos olhos esbugalhados e à incapacidade de fechar a boca.

Transito, muito transito: eles enfiam-se por todo o lado, fazem segundas e terceiras filas de estacionamento, saem dos estacionamentos sem olhar para lado nenhum, apitam, fazem inversão de marcha onde lhes dá na cabeça, ultrapassam por onde conseguem, andam em contra-mão. Uma delicia.

Depois, homens. Só homens (vá, uma senhora muito de vez em quando) por todo o lado. Parecem formigas. A beber chá, à porta das lojas, parados na rua a olhar para o nada, dentro dos carros a apitar para que os empregados dos restaurantes lhes tragam a comida aos carros (qual drive-in, qual quê!). Indianos, paquistaneses, locais, do Bangladesh, do Quénia, de todos os buracos deste mundo. Um banho de cultura.

Mas, só se consegue um banho de imersão completo, quando percorremos a rua a pé. Numa noite resolvemos ir a um dos restaurantes turcos de Matar Qadeem, a pé, para comprar comida e levar para casa. Meus amigos, o meu sentido olfactivo estava no seu auge. Eu bem tentava não olhar e passar despercebida, mas era quase impossível. O meu tom de pele e a minha indumentária denunciam-me logo. Os indianos, principalmente, olham para uma mulher como se fosse uma espécie que nunca tivessem visto. Felizmente, só olham. Se comentam ou mandam algum piropo, será lá na língua deles, o que para uma estrangeira é o mesmo que chinês.

A algazarra na rua é tanta (e o perigo de seres atropelado também!), que uma pessoa chega a ficar zonza. A quantidade de coisas, que o nosso cérebro tem de processar, é tanta que parece que entramos numa segunda dimensão: queremos ver tudo, as cores, as lojas, os produtos. Depois do choque vem a curiosidade. Pelo menos para mim, que nunca tinha estado num cenário como aquele.

O que é curioso é que, Matar Qadeem consegue deixar-te impressionado na primeira vez que por lá passas. Ou na segunda vez, também. Depois, como em tudo nesta vida, acabas por te acostumar e a rua deixa de ser assim tão escandalosamente estranha. Embora já não me faça muita confusão, o que eu mais gosto de apreciar em Matar Qadeem é a quantidade de culturas que ali se junta. Mas acho que nunca me habituarei a passear ali a pé.

plantaMatarQadeem

a zona delimitada a vermelho (Old Airport), onde se pode ver a rua central de Matar Qadeem