Sugar & Spice – como não ficar encantado com este lugar..

Quando vemos esta casinha, ao longe, não conseguimos imaginar o que esconde lá dentro. Situada no Aspire Park, esta casa de bonecas, é um sitio onde se pode tomar o pequeno almoço, ou almoçar, ou beber só um café, ou fazer um lanche gigante, beber só um sumo, comer um gelado ou jantar. Podemos consumir no local ou fazer takeaway. Há para todos os gostos e necessidades.

Nós entrámos para lanchar. Eu não queria acreditar no que os meus olhos viam, dentro daquela casinha de madeira.

Mal entramos, parece que estamos a entrar na casa de alguém. Mas, esse alguém vive nos Estados Unidos e tem uma casa muito característica. Faz lembrar a casa das avós fofinhas dos filmes melodramáticos de Hollywood. As madeiras, os móveis, todo aquele cenário vintage. A forma como nos apresentam a comida, a decoração, a música de fundo. Tudo nos leva a milhares de quilómetros de distância do deserto.

Tivemos a sorte de ficar numa mesa perto de uma janela, e a luz do fim da tarde tornava a cena ainda mais idílica. Já no fim do lanche, depois de ter comido uma tarte de maça com gelado de baunilha, que estava maravilhosa, fique surpresa e agradada, porque em música de fundo, passava isto: Creep 

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A ideia original deste sítio (que já se expandiu para mais dois lugares em Doha), pertence a Saleh Alayan e à sua paixão pela pastelaria. Podem ver a história, os menus e galeria de fotos na página oficial – Sugar & Spice – ou através do Instagram.

Vamos às compras?

Sair de casa e planear ir ao supermercado comprar meia-dúzia de coisas para o jantar, pode ser uma tarefa muito complicada. Especialmente se a pessoa sofre do sistema nervoso. É bem provável que, quem não roa as unhas comece a roer.

Imaginem o Jumbo na semana do Natal. Agora multipliquem por nove. É quase impossível conduzir um carrinho de supermercado, em alguns hipermercados de Doha. Seja a que dia que for, seja a que horas for. As pessoas são aos magotes, eu acho que eles até debaixo do chão aparecem.

Tivemos a infeliz ideia de ir ao Lulu (uma das cadeias de supermercado existentes no país), aqui perto de casa. Em simultâneo, mais de metade da Índia deve ter tido a mesma ideia. E mais alguns locais, que também os vi. Pronto, éramos muitos.

Lá fui eu, empurrando o carrinho de compras, à medida de meio-centímetro por minuto, com pouca paciência, é certo, mas com muita necessidade dos produtos que ia comprar, sob pena de comer guardanapos no dia seguinte!

Este povo que aqui habita também como expatriado, vindo da terra do caril e do Taj-Mahal, é deveras muito curioso e peculiar. Antes do mais, eu acho que eles não sabem o que é circular. Isto tanto se pode observar enquanto andam a pé, como a conduzir qualquer que seja o veículo. Param onde quer que seja, dão meia-volta, atravessam-se à tua frente, largam os carrinhos onde quer que seja, obstruem a passagem. Param para conversar em frente de um expositor qualquer, mas não estão a escolher nada, só estão ali, em círculo a conversar. Não percebem o que é um «desculpe», desconhecem um «com licença»… Suspeito que tenham crescido com esta característica, porque como na terra natal são obrigados a contornar vacas, nos sítios onde não as encontram tão facilmente estacionadas, devem sentir-se perdidos, desorientados. Devem ter um defeito no GPS, com certeza!

Mas, aglomerados de gente à parte, até se torna muito engraçado entrar num supermercado. Mais que não seja para nos darmos conta de uma realidade a que não estamos acostumados.

Aqui, muito mais do que apostar na qualidade, aposta-se na quantidade. Senão, vejamos: o arroz é vendido às sacas de 5 quilos para cima. Também há pacotes mais pequenos, é certo, mas não me parece que tenham a saída mais popular. O mesmo se passa com o açúcar, a farinha. A explicação pode passar por ser mais prático para as famílias, geralmente grandes que existem no país. Os qataris têm muitos filhos. Alimentar tantas bocas pode ser uma dor de cabeça na hora de fazer a lista de compras. Assim, em vez da senhora apontar um pacote de arroz, aponta uma saca de vinte quilos. Pronto, alimentados de arroz para um mês inteiro.

Às vezes, como se já não bastasse o tamanho industrial do produto, ainda fazem promoções em que numa enorme embalagem colocam lá embalagens mais pequenas ou iguais do mesmo produto, como oferta. Podem ver isso ali na foto onde aparece o arroz basmati Tilda. As embalagens de baixo são as maiores (20 quilos se não estou em erro) e na prateleira de cima, podem ver a promoção de vários pacotes de arroz juntos, mais um mais pequeno. O que realmente surpreende, é que este tipo de coisas compensa. Os preços até são bastante atractivos.

Outra coisa que os qataris e indianos consomem em demasia: leite em pó. O curioso é que eles têm leite ultra-pasteurizado, em pacotes semelhantes aos nossos. E embora algumas marcas não prestem para nada, até se encontra uma ou outra marca de qualidade. É preciso ir experimentando. E ler os rótulos: há leite de vaca, de cabra e de camelo. Ou da fêmea do camelo, para ser mais precisa. E também há toda uma gama de leites de aveia, amêndoas, coco, soja. Ou seja, existem alternativas mais saudáveis e menos químicas. Mas eles, continuam a preferir o leite em pó. E como não pode deixar de ser, o mesmo é vendido em latas ou pacotes de tamanhos industriais.

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Promoções, ofertas, vale tudo e para quase tudo. Nos produtos de higiene e beleza, é muito comum comprar-se os shampoos aos pares, o gel de banho, o sabão para as mãos em embalagens de três. Nos produtos de limpeza, o mesmo cenário. Queres comprar um detergente para o chão, ou trazes um de cinco litros ou uma embalagem com dois ou três de tamanho normal. Aqui não se faz a festa por menos.

Uma vez pedi ao Pedro para comprar polpa de tomate. Trouxe uma embalagem com dez pacotes. Era a promoção que havia. Ora isso dá quase para dois meses para nós, e mesmo assim fazendo muitos pratos com polpa de tomate. Para uma família local, acredito que não dure tanto!

O que realmente dá gosto é ver a quantidade de legumes, frutas, hortaliças que eles têm à venda. Umas bastante familiares, outras autênticas desconhecidas. Enquanto deambulava pelos corredores, embalada no mar de gente à minha volta lá fui tirando umas fotos.

Outra coisa que eles também vendem que se fartam: frutos secos. Um amontoado de tudo quanto é espécie: amêndoas cortadas de todas as formas e feitios, pinhões, pistácios, avelãs, castanhas, ameixas, amendoins, nozes, sementes de todas as espécies. O que imaginarem, eles têm.

De resto, como em qualquer supermercado comum: os frios, o talho, os congelados, a peixaria. A pastelaria com imensos bolos e sobremesas, de fazer inveja a muita pastelaria de rua. A padaria com pães de toda a forma, mas com especial ênfase para os pães locais, que acabados de fazer são uma autêntica perdição e amigos da engorda.

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Para finalizar: ir ao supermercado em Doha requer força anímica. E persistência. E, sobretudo, muita paciência e calma, até porque não é permitido espancar ninguém, embora nos comece a passar isso pela cabeça logo assim aos primeiros minutos. Por muito que nos sintamos a cegar e impulsionados a desatar ao pontapé, convém termos sempre presente no nosso pensamento que tudo isto faz parte de uma cultura a que nós, os eternos civilizados europeus, não estamos de todo acostumados. Mas depois, a nossa capacidade de sobrevivência começa a vir ao de cima. E este jogo de selva começa a ser menos agressivo. Prefiro pensar assim, uma vez que vou ter que me acostumar a este tipo de stress. Até porque acredito que ainda é uma utopia as compras online com entrega em casa. Desconfio que vou ter muitas saudades do meu Jumbo do coração, mesmo na semana do Natal.

 

Outside World

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Uma das primeiras impressões que tive do país, não só quando visitei na primeira vez, mas também nas viagens seguintes, foi a de que a civilização era um ponto forte. Doha é, de facto, uma cidade cosmopolita e em ascensão. Mas, assim que saímos do núcleo urbano, os sentimentos contradizem-se. Mais uma vez, a famosa sensação: ou se ama, ou se odeia. Não quero dar falsos testemunhos: a mim impressiona-me.

Se formos até Mesaeed, por exemplo, ao passar pela estrada que nos leva até Al Wakra, tive a sensação de que ia encontrar o José Rodrigues dos Santos, de microfone em punho, a relatar qualquer acontecimento com a guerra do Golfo. O deserto é desolador. E muitas vezes, as povoações fazem-nos cair na realidade: não estamos na velha Europa. Isto é mesmo um país no Golfo Pérsico, com todas as semelhanças aos cenários que viamos nas reportagens. Basta andar uns quilómetros para fora da capital.

A paisagem árida e creme, levada numa neblina de pó e areia, não mostra sinais de vida. São pó, pedras e pequenos arbustos, na seca e crua natureza que nos rodeia. Às vezes, ainda me custa acreditar que estou mesmo aqui.

De vez em quando, casas em construção ao abandono, terrenos baldios, amontoados de povo que não imagino como viverão. A dura realidade de que, o que vemos no centro, não corresponde de todo, ao que encontramos nas periferias.

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Falaram-me sobre algumas zonas, nos arredores de Doha, onde os amontoados populacionais acontecem sem se saber como. Aqui, não se trata tanto disso. Trata-se de olharmos em volta e vermos deserto. Sentirmos que o chão que pisamos não se trata só de terra e pó, mas sim de algo imaterial: uma ilusão perdida.

Aqui, nestas paisagens, nestes locais quentes e secos, vivem pessoas. Muitas pessoas. Para a grande maioria, esta será a única realidade que conhecem. Não sei se são felizes. Não sei como vivem. Apenas imagino, ou nem sei bem se aquilo que imagino se poderá aproximar da realidade.

Dizem que o deserto fascina, pelo seu silêncio e pela sua imponência. A mim fascinou-me pela sensação de poder superior. Aqui, a nossa capacidade de superação é posta à prova. Mas não acredito que o Homem leve a melhor. Aqui, o ser humano tem de se adaptar, com resiliência, com grandeza e bravura. Nestas paragens, precisas ser mais forte que as adversidades e tentar viver com aquilo que está ao teu alcance. Até porque esta realidade é o antípodas dos compound de luxo e do glamour da Pearl.

Tenho apenas uma certeza: os meus pés pisaram estes solos. Esta sensação, esta experiência, já ninguém me pode tirar. Dizem que das viagens voltamos mais ricos. E eu acredito. Só posso acreditar.

Os Qataris cheiram bem. A sério!

Uma das primeiras coisas que reparei no Qatar, quando passava perto de locais, foi no aroma que ficava no ar. Hão-de achar que estou a exagerar ou a dizer uma enorme asneira, mas acho que nunca na minha vida, me cruzei com um povo que cheirasse tão bem. Sim, de facto, os Qataris cheiram todos muito bem. E não é cheiro a um qualquer perfume banal. É um cheiro muito característico, aromático, fresco, imperceptível de dizer o que será.

O mais curioso, é que não são só as pessoas que cheiram bem. Se entrarmos em algum local que eles frequentem, algumas lojas, determinados sítios nos centros comerciais, também podemos sentir uma fragrância característica. Qualquer coisa como incenso, mas não queimado. Enfim, muito difícil de explicar por palavras. Em muitos sítios podemos também encontrar perfumarias, onde o cliente faz a sua própria fragrância. São lojas muito luxuosas, cheias de frasquinhos

Eu e o Pedro comentamos sempre que passamos por algum que cheira bem. Onde será que eles arranjam estes perfumes? Existem perfumarias aos pontapés, com as marcas que estamos habituados a consumir. Mas, este cheiro que eles e elas têm não é o de um perfume normal. Pois, pelos vistos, de acordo com este video, os qataris usam alguns truques que os ajudam a cheirar [maravilhosamente] bem. Ele fala em algumas coisas: Oud, Dihn Al Oud, Bukhoor, Perfume e Flores. Fica aqui a promessa de que, uma vez de arraiais montados no Qatar, vou tentar descobrir mais sobre os produtos desconhecidos. E experimentar, porque vale realmente a pena fazer a experiência para cheirar tão bem! Enquanto isso não é possível, aqui vão as dicas de um local!

 

Hamad International Airport: a um passo do futuro.

Quando pensamos em smart airports, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a funcionalidade do serviço. Quem já viajou de avião, sabe bem o quão stressante pode ser a experiência: longas filas num check-in, longas filas na segurança, sinalética pouco compreensível, grandes distâncias, muita gente e um prazo para cumprir. Sim, os aviões não esperam por nós. Convém não esquecer que estamos num aeroporto e não num terminal rodoviário!

Logo, quando um aeroporto faz um esforço, no sentido de facilitar a vida do passageiro, colocando ao dispor serviços (e tecnologia) que nos poupam tempo, energia e chatices, só pode estar a utilizar bem os recursos que o “futuro” nos oferece. Estar no caminho da modernização, da facilitação e proporcionando bem-estar, fazem de qualquer aeroporto uma primeira escolha.

O Hamad reúne duas grandes características, que fazem dele um aeroporto vencedor: o foco na primazia do serviço prestado e a modernidade de equipamentos. Não há como ficar indiferente, tendo como base de comparação muitos outros aeroportos por esse mundo fora. Se bem que o poder económico conta (e muito) na aquisição e adaptação destas infraestruturas, não se pode deixar de referir que, o interesse em facilitar a vida ao cliente e proporcionar que este tenha a melhor experiência possível, são pontos elevadíssimos para a conquista de uma boa reputação. Sem qualquer sombra de dúvidas, o Hamad está a um passo do futuro.

Viajar com a Emirates, de Lisboa a Doha.

Infelizmente, os voos a partir de Lisboa ainda não são directos até Doha. Portanto, qualquer que seja a companhia que se apanhe para viajar até ao Qatar, tem obrigatoriamente que fazer escala em qualquer lado. Isto, para quem quer partir de Portugal, obviamente.

Na minha primeira viagem, em Fevereiro de 2016, aproveitando as promoções da Emirates, voei de Lisboa, fazendo escala no Dubai. Foi a minha primeira viagem de longo-curso sozinha. E a expectativa de voar numa grande companhia aérea, estava ao máximo.

Vamos lá a considerações:

  • O atendimento é bom, cordial; mesmo em económica conseguimos ‘perceber’ alguns luxos da companhia;
  • À entrada no avião, os nossos sentidos acalmam: a aeronave cheira maravilhosamente bem e uma música de fundo, muito relaxante, toca em repeat até que o aparelho comece a andar;
  • Antes da partida, a tripulação distribui uns pequenos toalhetes quentes e aromatizados, para que as pessoas se possam refrescar;
  • No nosso assento temos: almofada, manta, auscultadores, o menu das refeições;
  • O entretenimento a bordo é intuitivo e com muita oferta; Gostei especialmente da câmara em tempo real, que nos permite visualizar, tanto a ponta como a cauda do avião; muito giro na hora de levantar voo ou de aterrar!
  • As refeições servidas são boas e também com muita oferta; convém salientar que podemos, na altura da reserva, fazer um pedido especial em relação à alimentação que queremos que nos sirvam;
  • Diz quem costuma viajar com frequência, com a Emirates, a partir de Lisboa, que normalmente estes voos vão carregados de chineses. Este não foi excepção: carregado é pouco para a quantidade de chineses que iam neste voo. De lamentar que não houvesse ninguém na tripulação que falasse chinês, porque às tantas, duas passageiras começaram a discutir, ainda o avião ia na taxiway e foi uma autentica confusão. No mínimo surreal, metade dos chineses aos gritos e as pobres comissárias de bordo sem conseguir tomar conta da situação, até que apareceu um comissário, mandou três berros em inglês (língua que os chineses também não falavam!) e lá conseguiu pôr ordem naquilo. Até que depois de o avião já ir no ar, mudarem de lugar a uns quantos, que a zaragata, de vez em quando, reatava.
  • De uma forma muito geral, o serviço é muito bom e não me importaria nada de voar novamente com a Emirates.

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Quando aterrei no Dubai, a desilusão foi total. Sempre achei que o aeroporto fosse um reflexo da riqueza do país. De facto, sendo o maior hub do Médio Oriente, tenho a dizer que achei o aeroporto muito pobrezinho para fazer jus à fama que tem.

Quente, sujo, velho, carregado de coisas por todo o lado. Parece que decidiram ‘despejar’ os produtos para vender ali no meio das pessoas. Sinalética confusa, tudo muito longe, casas de banho a precisar de serem reformadas, staff pouco simpático e nada colaborante. Dirigi-me a um segurança para perguntar onde era a casa de banho mais próxima e limitou-se a esticar o braço e acenar com a cabeça que era em frente. Nem uma palavra disse. Obviamente, que a minha experiência não pode ilustrar a realidade do aeroporto do Dubai, mas se realmente aquilo não é assim, fui num dia mau em que tudo correu mal.

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A minha escala no Dubai demorou seis horas. Depois de mal ter dormido no avião (o meu voo foi durante a noite) e depois de estar completamente trocada com o fuso horário, ter de esperar seis horas para apanhar o voo para Doha, foi das coisas mais chatas que já fiz. Cansada, num aeroporto nada funcional, cheia de calor, com sono e com muita vontade de chegar ao Qatar.

Explicar o Amor.

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Quando te vês rodeado de gente com uma cultura diferente da tua, se fores uma pessoa curiosa, a primeira coisa que vais querer fazer são muitas perguntas. O meu marido costuma contar-me muitas das conversas caricatas que tem com os colegas, essencialmente sobre as diferenças culturais entre todos. Invariavelmente, a conversa vai parar ao casamento.

Na primeira visita que fiz a Doha, tive oportunidade de conhecer alguns dos colegas e amigos que o meu marido foi fazendo ao longo dos primeiros quatro meses. Um deles foi o seu primeiro (e único) colega de apartamento. Quando ele chegou a Doha, partilhou o alojamento temporário da empresa com um colega e entretanto ficaram bons amigos. Esse amigo é de origem indiana. E, tal como já disse, tive oportunidade de o conhecer e de conversar com ele acerca do seu país, da sua cultura.

Normalmente, a pergunta que fazem ao meu marido é: o teu casamento foi arranjado ou foste tu que escolheste a tua noiva? ou ainda: tiveste sorte com a noiva que te arranjaram ou que escolheste? Ele responde sempre a rir que nos escolhemos um ao outro, porque somos ‘livres’ de o fazer. Ou responde que fui eu que o escolhi. Normalmente, com a segunda resposta as caras de atónitos deles ainda ficam mais engraçadas.

No mundo ocidental, o normal é duas pessoas conhecerem-se, apaixonarem-se e partilharem as suas vidas em conjunto, casando ou não dependendo do modo de vida que escolhem. Certo?

Mas, o que parece tão certo e lógico para nós, não faz nenhum sentido do outro lado do planeta. São estas diferenças culturais que nos enriquecem, porque não há um lado certo ou errado em cada posição. Há o que, para determinada sociedade, faz sentido ou não.

Então, o amigo (agora nosso amigo!) indiano explicou-me que, dependendo das castas, assim são os casamentos na Índia. Normalmente, os casamentos são arranjados pelas famílias dos noivos, levando em conta a mesma religião e a mesma casta. A família da noiva deve ‘pagar’ pelo noivo, ou seja, quem tem uma filha para casar, normalmente trabalha para pagar o casamento da filha. No caso deste nosso amigo, ele tem várias irmãs e algumas ainda solteiras. Logo, ele também trabalha para ajudar no casamento das irmãs. Já a família dos noivos tem a tarefa mais facilitada, pois apenas tem de possuir um bom exemplar masculino pelo qual a família da noiva queira pagar! Parece surreal, não é? Mas acontece, na cultura indiana, em pleno século XXI.

Logo, surge a questão do amor. Na pratica, a grande maioria dos indianos não casa por amor. Os casamentos arranjados servem para unir famílias e aprofundar laços entre elas. Normalmente, isso tem todo o tipo de interesses por detrás. A questão é: o amor surge depois de um casamento arranjado? Aprende-se a amar uma pessoa porque temos de conviver com ela?

Na cabeça de um ocidental, todas estas coisas fazem imensa confusão. Não nos passa pela cabeça casarmos com alguém do qual não estamos apaixonados (pelo menos para a grande maioria de nós). O amor para nós, enquanto casal, é um sentimento que cresce à medida que vamos descobrindo o outro, à medida que vamos construindo algo com a nossa cara metade. Implica conquistar, desejar, investir numa relação, numa pessoa que nos completa e nos atrai. Depois de todo esse ‘ritual’, vem a vida em conjunto, os planos a dois.

Os indianos simplesmente invertem tudo isto. Toca de casar primeiro e gastar uma pipa de massa em ouro para a noiva e dotes para o noivo. E depois de bem casados, dois estranhos, têm de aprender a conviver. E talvez se apaixonem um dia ou cheguem a amar-se.

Por isso é que entre homens, eles perguntam naturalmente se o meu marido teve sorte com a sua noiva. Porque basicamente, para depois de um casamento arranjado, se sentirem felizes, só mesmo com um grande golpe de sorte. Não quero imaginar a quantidade de histórias macabras sobre ‘azares’ com as noivas e noivos, que as pessoas da Índia têm para contar. Talvez um dia pergunte ao meu amigo se sabe alguma..