Um teste à paciência.

 Já aqui o disse antes: conduzir no Qatar requer sangue frio e uma grande dose de fé. Todos os dias, a nossa paciência e auto-controlo são postos à prova.

Para 99,9% dos condutores, o conceito de faixa de rodagem é algo comparável à física quântica. Difícil de entender! Uma pessoa chega mesmo a acreditar que, eles pintaram todas aquelas linhas nas estradas, porque só lá estar o alcatrão preto era muito deprimente. O ponto de vista é: isto é uma estrada, enquanto o carro (e quem diz carro, diz camião com atrelado, por exemplo) couber, é para seguir caminho. Não há cá essa parvoíce de fora-de-mão. Quem quiser que se desvie.

Prioridades, limites de velocidade, civismo são tudo coisas que não fazem parte do código da estrada desta gente. Vale tudo: crianças ao volante, conduzir enquanto se tira uma selfie, pular passeios quando se está à espera numa fila há mais de trinta segundos, estacionar em segunda e terceira fila, andar em sentido contrário. Todo um cardápio de contra-ordenações graves e muito graves, que fariam as delícias dos cofres da Brigada de Trânsito em Portugal.

Uma pessoa normal, a conduzir aqui, é bom que tenha um estômago forte e um sistema nervoso sem falhas. De outro modo, é bem provável que uma ou outra úlcerazita comece a dar sinal. Ainda para mais quando, não nos é permitido por lei, extravasar a nossa raiva e indignação, através do típico dedo do meio ou qualquer outro gesto próprio de quem só tem vontade de começar a distribuir chapada.

Há dias, um exímio portador de carta de condução deste país, atravessou na diagonal sete faixas de rodagem. De um lado ao outro, cá sem preocupações ou medos. Nem um pisca ligado, sequer. Quase que aposto que nem se dignou a olhar para os espelhos. É andar para a frente e quem vier atrás que trave.

Só há uma coisa que é respeitada aqui, na maior parte das vezes: o sinal vermelho. Assim que o verde começa a piscar, é vê-los a travar (ou acelerar conforme a distância a que estão do sinal), porque a multa pela passagem ao sinal vermelho é assim para o puxada. Fora isso, suponho que o manual teórico das aulas de condução sirva para algumas coisas, menos para ser lido ou levado em conta.

Por isso, todos os dias, quando vou pegar no carro para conduzir, quase que faço um ritual de equilíbrio dos chakras. Toda eu sou paz e amor. Contudo, temo o pior: uma pessoa para se safar nesta selva, tem de desaprender tudo aquilo que aprendeu. O célebre ditado, quando não os podes vencer, junta-te a eles, é tão certo. Tenho medo, muito medo, de já não saber conduzir quando voltar às estradas portuguesas. E tenho medo de ser presa! Porque a conduzir em Portugal como se conduz no Qatar, é certinho e direitinho que sou constituída arguida por homicídio voluntário.

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