E que comecem as aulas..

Dia 1 . 04 de Setembro de 2016

05h40 – toca o despertador. Todos de pé. Eles muito excitados porque tinha chegado o dia. Andaram a falar nisto durante dias, semanas. A escola nova. Amigos novos. Toda uma realidade que eles desconheciam. Como seria, o que aconteceria? Mochilas prontas, lancheiras e uniformes vestidos, lá fomos a caminho daquele que será o espaço onde mais vão crescer e aprender.

06h45 – Ao portão, recebe-nos o director da escola. Toda a gente bem disposta, a Mariana a radiar felicidade. O Manuel já a acusar o que se seguiria. Fomos primeiro deixá-lo a ele, na Recepcion. Uma professora novinha esperava por nós. Miss Donnelly é o nome dela (e ele já sabe dizer, com um certo sotaque british!). Deu-me um abraço e ficou a fazer beicinho, mas ficou. Depois, foi a vez dela. Tem um professor, Mr Cassidy. Na turma, ao todo são 9 alunos, contando com ela. Lá a deixei na sala, toda feliz.

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E saí. Ainda sem me dar muito bem conta do que estava a acontecer. Esqueçam todos os dramas de deixar os vossos filhos numa escola nova em Portugal. Só quem passa por esta experiência, percebe o que quero dizer. Não basta o nervosismo de os deixar, senão ter a certeza de que, pelo menos o pequeno, não percebe nada do que se passa à volta dele. Que não se vai conseguir exprimir, que não vai perceber o que lhe dizem, que não vai com facilidade brincar e aproveitar todos os excelentes recursos que a escola oferece, porque não sabe muito bem o que ali está a fazer. Conseguem imaginar a minha angustia? Multipliquem por 9 isso que imaginaram e não chegarão lá perto..

Em frente à escola, está um hotel. Fiquei lá sentada no bar durante as sete horas que se seguiram. Não me peçam para descrever o que fiz ou senti. Acho que só fiquei ali, sentada, a olhar e contar os minutos que faltavam. Asneira grande, sei agora. Não havia necessidade disso. Pois não. Mas, o coração das mães é muito descompassado. Achei que estando perto, tudo se tornava mais fácil. Que se me chamassem, ia a correr salvar os meus rebentos do domínio britânico. 🙂

Um cappuccino, um Frappuccino e sete horas depois, esperava eu no hall por eles. O Manuel quando me vê, desata a chorar desalmadamente. A professora aflita, a dizer que ele esteve bem, que participou.. e ele só chorava. E eu percebi porquê. Era o alívio de me ver ali. Tinha acabado o suplicio de passar o dia sem perceber nada. Tento colocar-me no lugar dele e fico com um nó na garganta. Ele, tão pequenino, a sentir-se só. Sei que isto só vai ser complicado agora… se, por algum motivo, vacilarmos, estaremos a dar um passo atrás. E a readaptação vai ser mais difícil ainda. Tento interiorizar que, em breve, não haverá problema nenhum e ele vai estar a falar inglês melhor que todos nós. E mais do que interiorizar, tenho a certeza de que isso vai acontecer.

Acalmados os ânimos, lá fomos buscar a irmã. Maravilhada, enérgica, super-confiante. Esta miúda surpreende-me a cada dia que passa. Sei a filha que tenho e os limites dela. Só posso dizer que não podia estar mais orgulhosa dela: percebe tudo, comunica, faz amigas. Como peixe na água! 🙂

Veio o caminho todo a falar da escola e das coisas que fez, dos novos amigos. Tem uma amiga brasileira, a Eduarda, que não fala inglês. Então ela é a interprete da amiga. Adorou o professor e tudo o que a escola tem para oferecer. E eu não podia estar mais descansada com ela!

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O Manuel a brincar na sala dele.

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A Mariana empenhada no trabalho

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da direita para a esquerda: o director (Mr Jarlath), o prof da Mariana (Mr Cassidy); sentada no chão, a sorrir, a prof do Manuel (Ms Donnelly)

Dia 2. 05 Setembro 2016

O despertador toca à mesma hora. Enquanto tomamos o pequeno almoço o Manuel chora. Que afinal não quer ir à escola, que podia ficar comigo. E o meu coração a apertar. É nestas alturas que não convém vacilar. Temos de ser firmes, mesmo que estejamos a desfazer-nos por dentro.

Mesmo de beicinho, ele foi. Ao chegar à porta da sala, ainda começou a choramingar. A auxiliar veio buscá-lo e ainda nós não tínhamos dado costas ele já tinha parado de chorar. Sabemos que vai custar, no inicio, mas há-de passar.

Ela, como uma adolescente desenrascada, lá foi para a sua sala, cheia de confiança e optimismo. Não me cabe o orgulho no peito.

Desta vez, já não fiz a asneira de ficar de plantão sete horas de seguida. E como tínhamos coisas para fazer, voltei para casa e ocupei o tempo.

À hora da saída, lá estávamos nós à espera. Desta vez, o Manel já não chorou quando nos viu. Mas, notava-se a sensação de alívio que ele estava a sentir por nos ver. Acredito que, aos poucos, se vá sentindo confiante e perceba que estaremos sempre ali, ao fim do dia.

Ela veio o caminho todo a contar o seu dia. Ele, quando sai da escola já não quer falar mais sobre ela. E nós percebemos, respeitamos e vamos dar o tempo necessário.

E ao terceiro dia..

Ele diz-me antes de sair de casa: « depois tu vais lá estar quando eu sair, não vais?» E aí percebemos. O medo dele é que não estejamos lá para o apanhar. O lugar estranho, com a língua estranha assusta-o. Mas, o que mais o preocupa é que não estejamos lá, ao fim do dia. Meu menino. Tão bebé..

Segurei-lhe nas mãos e olhei bem para ele. «Sim, meu amor. Eu vou estar lá sempre. E o pai também. Quando a tua escola terminar, não tens de te preocupar. Nós vamos lá estar.»

Subitamente, no carro, começa a contar que a professora contou a história dos 3 porquinhos. Entrou na escola, fomos até à sala. Nem sequer se despediu de mim. Deu a mão à auxiliar, e entrou na sala. Sem chorar, sem vacilar.

Tudo a compor-se.

*fotos tiradas pela escola e publicadas na página oficial da escola.

Ora, então.. Muito Obrigada!

Este post, ao contrário dos anteriores, não fala sobre a nossa aventura no Qatar. Só queria deixar por escrito, o meu agradecimento a todos quanto divulgaram (e aos que ainda hão-de divulgar mais) e partilharam este blog. Nomeadamente, através da página no facebook.

Esta aqui: ↘ Enquanto Voava !!

Sois todos muito simpáticos, pessoas de bem! Agradeço imenso o vosso gesto.. 💞

E uma palavra de boas-vindas, a todos os que aterraram por aqui; acabadinhos de chegar, só vos posso dizer que: nos arquivos encontram tudo o que já foi escrito; e que se quiserem continuar a saber coisas sobre esta família no Qatar, não abandonem o vosso lugar ainda, voltem a apertar os cintos, que em breve descolaremos para mais voos.

Muito, muito Obrigada!

Da minha janela..

 

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Da minha janela vejo o mundo.

A primeira vez que aqui cheguei, pensei que estava tramada. Vinha eu das Gambelas, de ver verde e flores e campo à minha volta. Das vivendas bonitas e das ruas pacatas. Começamos mal! – pensei.

A nossa rua estava fechada para obras. Para chegarmos ao prédio, andávamos por labirintos e ruelas, no meio deste género de bairro de Doha. Becos sem saída, buracos, prédios feios, restos de obras, contentores de lixo e gatos, muitos gatos abandonados. Era um cenário que desiludia, tendo em conta os lugares giros e super-luxuosos que existem por esta cidade fora.

Aos poucos, a minha opinião começou a mudar. Não, não gosto da estética nem das redondezas. Isto para mim levava com um Extreme Makeover radical. Plantava árvores e construía jardins, demolia casas feias e a cair, pintava tudo em cores mais bonitas. A minha opinião começou a mudar, porque reparei que aqui estava perto de tudo. Da escola, do trabalho do Pedro, do centro, de lojas e restaurantes, de serviços. O trânsito em Doha é tão confuso e tão caótico, que estar perto das coisas que se precisam diariamente, não é sorte: é uma bênção.

Com largos períodos em casa, enquanto o marido trabalha, a janela é um motivo de distracção. Daqui vejo a vida a passar. As pessoas que passeiam pela rua, nas suas vidas. Quando a mesquita faz o chamamento, lá vão eles apressados. Os carros a circular, muitos nem sabem fazer a rotunda como deve de ser. E à noite, é vê-los a passar com as caras iluminadas pelos ecrãs dos telemóveis, que esta gente ainda não descobriu o perigo de ir a conduzir de iPhone em punho. Os miúdos que brincam nos passeios, que às vezes andam à pedrada uns com os outros e ficamos a agradecer ao Pai dos céus por termos garagem. Os indianos que passeiam de mão dada, elas que desfilam os seus trajes coloridos e cheios de brilhantes. Os gatos vadios que brincam e lutam, muito peludos mas desengonçados. Aqui perto, o antigo aeroporto, de onde descolam aviões em testes ou caças da Força Aérea e o barulho é surreal.Os táxis a apitar à procura de  clientes, assim que vêem alguém a andar na rua. A carrinha do distribuidor de água, que mesmo debaixo de um calor infernal, lá carrega com os garrafões cheios e volta com os vazios. Da minha janela, vê-se a lua; vê-se a aurora de luz que emana do City Center.

Não moro no lugar mais bonito de Doha. Nem sequer anda lá perto. Mas, daqui vejo a vida a acontecer. Tal como ela é. E isso empurra-nos de volta para a realidade. Não viemos para o país dos tapetes voadores e dos Aladinos. Aqui não se esfregam lâmpadas mágicas e aparece o génio pronto a satisfazer desejos. Aqui, como em qualquer lado do mundo, trabalha-se e vive-se com o que a vida nos dá. Aqui será o nosso lar, enquanto Deus quiser. E é aqui que trataremos de ser felizes.

[The] Mall of Qatar

Não conheço mais nenhum lugar assim. Não sei quantos centros comerciais existem numa só cidade. Também não sei quantos existem em Doha, seria uma questão de os contar. Sei que são uns atrás dos outros, ou ao lado dos outros – literalmente. E enchem, curiosamente.

Como megalómanos que são, mais um menos um, o que importa é que se vá construindo cada vez mais. Com imensas coisas caras, gigantes, modernos, obras de design.

Hoje, venho falar-vos de mais um novo centro comercial que vai abrir em Doha. Chamar-se-a Mall of Qatar. Tem data prevista de abertura para o dia 29 de Outubro de 2016. Promete ser the place to be, tanto para residentes como para turistas. Vai ter cerca de 100 restaurantes, um hotel de 5 estrelas luxo (Hilton), 19 salas de cinema, a primeira Hamleys (famosa loja de brinquedos londrina) do Qatar, a primeira Kidzania (nome no médio oriente: Kidzmondo), um modelo de Carrefour diferente dos demais (estou curiosa acerca disso!) entre muitas outras coisas. Certamente não faltarão as famosas lojas de glamour e alta-costura a que o Qatar já nos acostumou. Vai ficar localizado na zona de Al Rayyan, perto do estádio do Al Rayyan, que será a sede do FIFA 2022. Portanto, estrategicamente colocado, de forma a atrair todo o tipo de consumidores, especialmente na altura do campeonato de futebol. Com a rede de transportes a ser construída no pais, este será também um dos pontos de ligação à cidade, contanto com uma paragem de metro.

Os Qataris não brincam em serviço. Eles adoram centros comerciais, sítios onde gastar o seu dinheiro. Este é só mais um. Megalómano e, ao que parece, estupidamente incrível.

Explicar o Amor.

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Quando te vês rodeado de gente com uma cultura diferente da tua, se fores uma pessoa curiosa, a primeira coisa que vais querer fazer são muitas perguntas. O meu marido costuma contar-me muitas das conversas caricatas que tem com os colegas, essencialmente sobre as diferenças culturais entre todos. Invariavelmente, a conversa vai parar ao casamento.

Na primeira visita que fiz a Doha, tive oportunidade de conhecer alguns dos colegas e amigos que o meu marido foi fazendo ao longo dos primeiros quatro meses. Um deles foi o seu primeiro (e único) colega de apartamento. Quando ele chegou a Doha, partilhou o alojamento temporário da empresa com um colega e entretanto ficaram bons amigos. Esse amigo é de origem indiana. E, tal como já disse, tive oportunidade de o conhecer e de conversar com ele acerca do seu país, da sua cultura.

Normalmente, a pergunta que fazem ao meu marido é: o teu casamento foi arranjado ou foste tu que escolheste a tua noiva? ou ainda: tiveste sorte com a noiva que te arranjaram ou que escolheste? Ele responde sempre a rir que nos escolhemos um ao outro, porque somos ‘livres’ de o fazer. Ou responde que fui eu que o escolhi. Normalmente, com a segunda resposta as caras de atónitos deles ainda ficam mais engraçadas.

No mundo ocidental, o normal é duas pessoas conhecerem-se, apaixonarem-se e partilharem as suas vidas em conjunto, casando ou não dependendo do modo de vida que escolhem. Certo?

Mas, o que parece tão certo e lógico para nós, não faz nenhum sentido do outro lado do planeta. São estas diferenças culturais que nos enriquecem, porque não há um lado certo ou errado em cada posição. Há o que, para determinada sociedade, faz sentido ou não.

Então, o amigo (agora nosso amigo!) indiano explicou-me que, dependendo das castas, assim são os casamentos na Índia. Normalmente, os casamentos são arranjados pelas famílias dos noivos, levando em conta a mesma religião e a mesma casta. A família da noiva deve ‘pagar’ pelo noivo, ou seja, quem tem uma filha para casar, normalmente trabalha para pagar o casamento da filha. No caso deste nosso amigo, ele tem várias irmãs e algumas ainda solteiras. Logo, ele também trabalha para ajudar no casamento das irmãs. Já a família dos noivos tem a tarefa mais facilitada, pois apenas tem de possuir um bom exemplar masculino pelo qual a família da noiva queira pagar! Parece surreal, não é? Mas acontece, na cultura indiana, em pleno século XXI.

Logo, surge a questão do amor. Na pratica, a grande maioria dos indianos não casa por amor. Os casamentos arranjados servem para unir famílias e aprofundar laços entre elas. Normalmente, isso tem todo o tipo de interesses por detrás. A questão é: o amor surge depois de um casamento arranjado? Aprende-se a amar uma pessoa porque temos de conviver com ela?

Na cabeça de um ocidental, todas estas coisas fazem imensa confusão. Não nos passa pela cabeça casarmos com alguém do qual não estamos apaixonados (pelo menos para a grande maioria de nós). O amor para nós, enquanto casal, é um sentimento que cresce à medida que vamos descobrindo o outro, à medida que vamos construindo algo com a nossa cara metade. Implica conquistar, desejar, investir numa relação, numa pessoa que nos completa e nos atrai. Depois de todo esse ‘ritual’, vem a vida em conjunto, os planos a dois.

Os indianos simplesmente invertem tudo isto. Toca de casar primeiro e gastar uma pipa de massa em ouro para a noiva e dotes para o noivo. E depois de bem casados, dois estranhos, têm de aprender a conviver. E talvez se apaixonem um dia ou cheguem a amar-se.

Por isso é que entre homens, eles perguntam naturalmente se o meu marido teve sorte com a sua noiva. Porque basicamente, para depois de um casamento arranjado, se sentirem felizes, só mesmo com um grande golpe de sorte. Não quero imaginar a quantidade de histórias macabras sobre ‘azares’ com as noivas e noivos, que as pessoas da Índia têm para contar. Talvez um dia pergunte ao meu amigo se sabe alguma..

Doha não dói!

As primeiras cinco coisas que te vão lembrar que estás numa cidade do médio oriente
1. Conduzir, essa grande proeza

Foi o primeiro choque que tive. Acho que estava preparada para tudo, menos para andar de carro no Qatar. Imaginem autenticas auto-estradas dentro da cidade, cheias de carros, jipes, autocarros, carrinhas, camiões. Agora imaginem um carreiro de formigas desorientadas. Juntem as duas imagens. Voilá, bem-vindos a Doha.

Aqui a técnica é a do salve-se quem puder, caiba o carro onde couber. Apitar muito, entrar sem esperar se é possível, não respeitar prioridades, usar o pisca se por acaso te lembrares, subir passeios se tiver de ser, ultrapassar pela direita. Vale tudo. Aqui desaprendes tudo aquilo que aprendeste nas aulas de condução. Deixas de saber conduzir civilizadamente. Arrisco-me a dizer que deixas mesmo de saber conduzir. Apenas andas com um veículo motorizado e fazes figas para não bater em nada, nem atropelar ninguém.

Não bastasse o transito ser infernal, demora-se imenso tempo para chegar a qualquer lado. Os semáforos parados podem chegar aos 10 minutos no vermelho. Contudo, os limites de velocidade, mesmo em auto-estradas, são muito baixos (80km – 100km), tendo em conta os nossos limites de velocidade. E existem imensos radares prontos a multar o condutor mais acelera ou aquele que passa o sinal já no vermelho. E as multas são pesadas!

2. Os locais.

Obviamente vemos locais por todo o lado. Aqui, o traje típico é altamente respeitado. Os homens usam uma túnica branca, o thobe, e na cabeça um lenço – ghotra – que pode ser branco, branco e preto ou branco e vermelho [de acordo com a proveniência da família]. As mulheres usam uma túnica preta – a abaya – e cobrem as suas cabeças com um lenço todo preto – shayla. De acordo com a vontade da mulher, ela poderá deixar a sua cara a descoberto, cobri-la com o niqab (deixando só os olhos a descoberto) ou cobrindo totalmente a sua cara com um lenço. 

Não seria de esperar outra coisa, uma vez que estamos num país islâmico. Contudo, o Qatar é muito mais liberal que alguns vizinhos árabes. Não é necessário que nenhum visitante ou expat se vista de acordo com o traje oficial do Qatar. Até não é esperado que isso aconteça! Devemos apenas ter atenção em lugares oficiais (museus, por exemplo) e em lugares públicos para não usarmos roupa que exponha demasiado o corpo humano. Eu levei a minha roupa normal e nunca me senti mal por isso!

Doha é habitada por milhares e milhares de expats. A grande maioria é de origem indiana. Então, também será muito frequente ver os trajes femininos e masculinos indianos. Elas cheias de cor e lantejoulas e brilhantes, contrastam com o negro das locais.

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alguns exemplos dos trajes nacionais que podemos ver no Qatar

3. A religião.

Obviamente estamos num país árabe. Aqui, a religião oficial é o islamismo, embora a Constituição do Qatar defenda a liberdade de culto. Ou seja, o país professa a religião islamica, com base na lei da Sharia, mas permite que as pessoas sejam livres de praticar o seu culto religioso, quando este é outro que não o islamismo. Para isso, o governo do Qatar construiu um complexo religioso, onde algumas das muitas religiões do mundo podem ter os seus ‘templos’ e acolher os seus praticantes. Sobre esse complexo falarei noutra altura, até porque achei muito interessantes alguns dados sobre ele.

Portanto, não é de estranhar que toda a cidade esteja repleta de mesquitas, umas maiores que outras, que a determinadas horas do dia fazem o chamamento à oração. Quem nunca visitou um país árabe, vai estranhar ouvir, de repente, a voz de um homem, num género de um canto, recitando versos, num som bem alto. E isto pode acontecer em qualquer lugar: ruas, praças, museus, centros comerciais. Na hora da oração, toda a cidade se enche do som dos recitais.

Não é de estranhar também que, em qualquer lugar, existam salas de orações (separadas para homens e mulheres). Podemos vê-las em quase todo o lado, que não tenha uma mesquita perto: escolas, aeroporto, hotéis, centros comerciais, até na praia!.. Normalmente têm um sinal à porta, ou para os mais distraídos, basta reparar nos sapatos que são deixados à porta, uma vez que os muçulmanos rezam descalços.

À sexta-feira (dia santo para os muçulmanos), é muito comum ver os homens a caminho das mesquitas com os seus tapetes para rezar. E todo o comércio abre mais tarde por causa das orações. Para almoçar num restaurante, por exemplo, só a partir das 13h30.

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4. Manifestar o contacto físico em público.

A cultura no Qatar é assim mesmo: o que é do foro intimo é para ser feito dentro de quatro paredes. Mas, calma!, não é assim tão opressor e radical quanto isso.

Antes de viajar para Doha, tinha a ideia de que o homem anda à frente, seguido da mulher, ou que nunca veria qualquer manifestação de carinho por parte de um casal. Nada mais errado, carregado de ideias pré-concebidas que muitas vezes fazemos sem termos a perfeita noção. É um facto que não vemos ninguém a beijar-se na boca em público, e também não vemos casais abraçados a namorar, por exemplo. Mas, é muito mais frequente do que se julga ver marido e mulher de mão dada, ou braço dado. Eu passeei com o meu marido de mão dada por todo o lado, sem nunca termos sido olhados de lado. Acho até que ninguém reparou em nós.

Mais frequente ainda é ver os homens cumprimentarem-se com beijos na face e abraços, entre eles. Às senhoras, eles inclinam a cabeça ou apertam a mão. Se a relação for mais estreita ou houver um grande respeito pela pessoa que encontramos, os homens cumprimentam-nos com a mão no peito. As senhoras entre si também se abraçam quando se cumprimentam. Acho até mesmo que os abraços têm um peso mais sentido que o simples beijo.

Devido à grande multiculturalidade de Doha, não é nada estranho vermos, por exemplo, homens indianos a passear de mão dada, ou de braço dado, ou apenas de dedos dados, especialmente quando são amigos.

Lembro-me de quando fui a Doha com os meus filhos, insisti imensas vezes com a mais velha que, no Qatar, não se davam beijinhos. Mais uma vez, é tudo uma questão cultural que facilmente adaptamos. Até porque, pessoalmente, esta tradição que temos de ser um povo beijoqueiro e desatar a beijar pessoas que acabamos de conhecer ou com as quais não temos grandes confianças, sempre me fez muita impressão.

5. Comer e beber.

Estamos no médio oriente, portanto há apenas duas coisas que não vão encontrar facilmente, de certeza: carne de porco e álcool.

É um bocadinho estranho ir ao MacDonald’s e não encontrar um McBacon, ou ir jantar fora e a lista das bebidas incluir toda a espécie de sumos e moktails sem álcool, sem existir um vinho ou uma cerveja sequer. Principalmente quando o restaurante mais parece um daqueles saídos da lista de cinco estrelas Michelin.

Contudo, em vários hotéis da cidade, os restaurantes estão autorizados a servir álcool aos expats, bem como bares e discotecas também dentro dos hotéis. Se a pessoa quiser consumir álcool em casa, pode adquirir uma licença e ir comprá-lo ao sitio determinado. Convém dizer que os preços são muito mais caros que o normal. Quem for apanhado com álcool no sangue, a conduzir ou em exercício da sua função profissional, arrisca-se a ser preso ou despedido.

Em relação à carne, galinha e borrego são os reis dos pratos. Aqui, os Hot-Dogs são de galinha, os enchidos podem ser de vaca, o presunto é de vaca, enfim.. toda uma nova experiência culinária a quem vem com vontade de provar novas coisas. Esqueçam é o entrecosto e a entremeada!

Tudo isto (e muito mais!) salta à vista assim que passamos as primeiras horas em Doha. Não presenciei até agora nada que me pudesse chocar culturalmente. Da mesma forma que, não me senti minimamente intimidada por ser ocidental. Penso que a base desta fórmula é o respeito. Obviamente, existem situações mais ou menos caricatas, à medida que vamos passando mais tempo na cidade. Mas, em momento algum, senti que estaria desprotegida por não professar a mesma fé, ou vestir-me de forma diferente. Doha, definitivamente, não dói. Pode ser estranha, à partida, mas depois acabamos por nos acostumar.

No dia em que pisei o chão do Médio Oriente.

O meu marido sempre me disse, desde que foi viver para Doha, que no dia em que eu fosse visitá-lo pela primeira vez, teria de ir de mente aberta. Isso sempre me deixou com muitos macacos na cabeça.

Embora ele me mandasse muitas fotos dos sítios por onde ia passando, ou me contasse as impressões que ia tendo à medida que se tentava integrar na sociedade, nunca nada é como nós imaginamos. Temos mesmo de ver com os nossos olhos e sentir com a nossa presença, para que possamos fazer realmente um juízo próprio.

Neste momento, eu praticamente não sei nada sobre Doha, sobre o Qatar e as suas gentes. Os vinte e seis dias que passei (no total das duas visitas) no país, ainda não chegam para saber tudo. Mas eu sempre fui uma pessoa de primeiras impressões: onde ponho o olho, ponho a bala – como se costuma dizer. E raramente me enganei em relação ao primeiro impacto que, tanto pessoas como lugares, me dão.

Ou se ama, ou se odeia.

Enquanto sobrevoava o médio oriente, já estava fascinada. O sol estava a nascer, lá em baixo viam-se terras nuas, estradas em rectas intermináveis, deserto; de vez em quando um edifício, duas ou três casas, e a imensidão de um bocado de terra que se prevê desoladora. Nos mapas do navegador de bordo que tinha disponível, podia ver que estava a passar por terras onde nunca imaginei que alguma vez pudesse passar. já de si, isso é imensamente fascinante. E pela primeira vez tomei consciência do quão longe estava de casa.

Quando aterrei em Doha, levava um misto de sentimentos: por um lado, o reencontro com o meu marido, depois de 4 meses; por outro lado, o facto de estar num país árabe, provavelmente o país que irá acolher toda a minha família. Primeiro deixei-me levar pela imensidão que é o aeroporto de Doha – Hamad Internacional. Amplo, grande, novo, com um cheiro agradável a perfume no ar, limpo. Percebe-se a grandeza com que os Qataris constroem as coisas. Depois de me reencontrar com o meu marido e nos cumprimentarmos com um abraço (manifestações públicas de contacto físico entre homens e mulheres não é culturalmente bem visto), saímos do edifício. Era Fevereiro, eu ia vestida tal como saí da Europa. Confesso que senti necessidade de começar a despir roupa. Não estava um calor infernal, nem nada que se parecesse com isso. Estava um dia típico de fim de Maio no Algarve, solarengo e agradável, embora muito mais húmido.

Então, é no momento em que deixamos o ambiente atípico de qualquer aeroporto e embrenhamos pelo país a dentro, que os nossos sentidos despertam verdadeiramente e começamos a tomar consciência (embora aos poucos), do que realmente nos espera.

Não posso generalizar e dizer que qualquer pessoa faz um primeiro juízo crítico ao fim de três dias, ou de um, ou de poucas horas. Eu demorei três dias para perceber que não ia odiar Doha. Foi o tempo necessário para deixar de ligar às coisas que não estava habituada a ver e ficar tipo boneca de porcelana.

Muitas pessoas precisarão de muito tempo (ou até nunca consigam!) para perceber se se adaptam, se gostam, se se sentirão confortáveis; muitas odiarão logo no primeiro minuto. Depende muito de cada um, do poder de adaptação, da capacidade de aceitação, do modo como estabelecem padrões para a sua vida. O facto de eu não ter odiado Doha, posso dizê-lo que o devo em grande parte ao meu marido, porque não é que seja indispensável, mas sem duvida ajuda e muito: eu fui de mente aberta.